quinta-feira, 28 de março de 2013

PPP: Propaganda, Propaganda, Propaganda


As PPP são um tema complexo. Trata-se de contratos "abertos", com previsões de receita e despesa a 30 anos, previsões essas que mudam / falham durante a longa execução dos contratos por inúmeros factores.

José Sócrates, como Paulo Campos há dois anos, lançou mão da comparação das estimativas de "encargos líquidos" do último OE Santana Lopes / Bagão Félix e do primeiro OE Passos Coelho / Vítor Gaspar para fazer passar que até reduziu a despesa com PPP.

Esta conclusão, assim suportada em OE's de Direita, produz um efeito surpreendente e escandaloso, como é próprio da boa propaganda.

Sucede que esse efeito é falso. A despesa pública bruta futura com PPP duplicou, ou mais, durante os governos de Sócrates. Simplesmente, o OE de Gaspar já considera um novo factor: 14 mil milhões de receitas de portagem, a pagar pelos automobilistas nos tais 30 anos. Esta estimativa, infelizmente, é provavelmente optimista, porque as quebras de tráfego, em tempo de crise, revelaram-se colossais. Mas o ponto é outro: essas autoestradas, antes, eram grátis! Agora estima-se que venhamos todos a pagar 14 pontes Vasco da Gama por elas.

Quem todos os dias paga deve saber bem a diferença, que não há propaganda que anule.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

MACACOS MORDAM O TGV

O editorial do Jornal “I” de ontem (link indisponível) é pertinente por chamar a atenção para o caos instalado no debate sobre comboios de alta velocidade em Portugal: «Basta consultar os jornais impressos, online, ver as televisões e ouvir as rádios para perceber que há tantas versões como órgãos de comunicação e tantos entendimentos quantos os contactos com a notícia», escreve o director, Eduardo Oliveira e Silva (EOS).

EOS diz com graça que a culpa só pode ser "do macaco", porque “não atinge o óbvio”. Por mim, podemos pôr nomes aos macacos: os políticos, que mil vezes opinaram sem saber do que estavam a falar, e os jornalistas, que mil vezes noticiaram nas mesmas absurdas e temerárias condições.

EOS, infelizmente, perde autoridade por cair na mesma tentação. Escreve ele que «do comunicado do Ministério das Finanças (onde o português é capaz de não ser a língua veicular) apenas parece transparecer que o governo conseguiu fazer que parte das verbas previstas para o TGV de passageiros passasse para um projecto ferroviário de mercadorias em bitola europeia. Ora entre isso e o TGV vai uma distância abissal».

Para ser claro, e sem ofensa, abissal é o erro de EOS, jornalista que não conheço mas que me habituei a ler e respeitar.

“TGV”, ou Train à Grande Vitesse, é a sigla com que foram baptizados em França os comboios de alta velocidade. Ora, o que se discute em Portugal, há muitos anos, é a construção de linhas de caminho-de-ferro. Essas linhas visam inserir a rede ferroviária portuguesa, como a espanhola, na rede europeia de comboios rápidos, mas também de mercadorias. Por alguma razão, os fundos comunitários se chamavam RTE - rede transeuropeia de transportes.

A questão prévia para entender isto é a bitola (distância entre carris). As linhas de caminho-de-ferro originais de Espanha e Portugal (de bitola ibérica) são mais largas do que as linhas francesas e da generalidade dos países da Europa (de bitola europeia). Há quem defenda que a opção espanhola por uma linha ferroviária incompatível com a francesa se deveu a uma questão estratégica de Defesa: dificultar a logística de tropas invasoras. Não sendo especialista no tema, julgo mais adequada a explicação maioritária entre historiadores: a opção visou antes reforçar a coesão territorial espanhola. De resto, se consultarmos a rede espanhola, é nítido o desenho «radial» com Madrid como centro.

Em Portugal, curiosamente, parece que as primeiras linhas foram construídas em bitola europeia. Mas acabou por impor-se a bitola ibérica, pela razão simples de que só nos podemos conectar com qualquer outro país, enquanto os comboios não voarem comos aviões, através de Espanha.

Esta circunstância tornou-se altamente penalizadora para a Economia portuguesa, a mais periférica da Europa ocidental. Excepcionando a Espanha, mais de 99 % das mercadorias que exportamos e importamos por via terrestre circulam por estrada. A opção ferroviária, muito mais económica e ambientalmente sustentável do que os camiões TIR, praticamente não existe.

A rede transeuropeia de alta velocidade, com generosos fundos comunitários dedicados, era e ainda é uma oportunidade histórica para ultrapassar este problema e aumentar a capacidade de atracção de investimento da Economia portuguesa. Os espanhóis perceberam isso primeiro. Salvo erro, a primeira linha de alta velocidade espanhola (Madrid-Sevilha) foi construída, em bitola europeia, como todas, para a Expo’92. Mas daí para cá a rede espanhola tem crescido a olhos vistos, ao ponto de estar previsto, no respectivo plano estratégico de transportes, a definitiva migração, ou substituição, da bitola ibérica espanhola para bitola… europeia.

O erro abissal de EOS é o que a seguir se explica. Uma linha de bitola europeia pode ser construída só para passageiros, mas também com a finalidade de ser “mista”: para passageiros e mercadorias. A linha, como ontem dizia com graça Manuel Moura, primeiro presidente da RAVE à TVI, é uma coisa fixa, não tem velocidade. Os comboios que lá andam é que podem ter velocidades variáveis. É como na A1: pelo facto de lá andarem ferraris, nada impede que, mais devagar, também circulem camiões com porcos, como se viu há duas semanas nas notícias.

O primeiro erro da discussão portuguesa é, precisamente, de nomenclatura. Ninguém se lembra de chamar “Ferrari”, “Ford” ou “Fiat” a uma autoestrada. Mas chamamos “TGV” a uma linha de caminho-de-ferro: políticos, jornalistas, comentadores e, por arrasto, o povo em geral. O nome é imbecil, mas tornou-se incontornável. Eu próprio, nas minhas notícias, recorro a ele, para não violar a lei jornalística que me obriga, e bem, a comunicar com os espectadores, embora tente sempre chamar a atenção para a abissal diferença entre um comboio e a linha em que ele circula.

Ora, o projecto da linha “Madrid-Lisboa”, de que falou o ministro das Finanças em resposta escrita a umas perguntas da TVI, é e terá de ser sempre para passageiros e mercadorias. Pela razão simples de que vai conectar-se, do lado espanhol, com uma linha mista (recordemos, para passageiros e mercadorias), entre Badajoz e Madrid.

O projecto do governo de Sócrates tinha esse erro original. Ao lado da linha de alta velocidade, em bitola europeia, previa a construção de uma nova linha, na condenada bitola ibérica, dedicada às mercadorias. Foi por isso que Manuel Moura, há uns anos, numa entrevista que me concedeu, classificou esse projecto de “tacanho” e de “salamancada” (os livros de História mostram como não há crítica mais impiedosa para um ferroviário). O segundo problema do projecto PS era que a bitola europeia não ligava directamente aos nossos portos-de-mar de Sines, Setúbal e Lisboa. De resto, em contradição com a estratégia dos espanhóis, que já ligaram e vão continuar a ligar as linhas de bitola europeia do AVE (o nome deles para o “TGV”) aos seus portos-de-mar.

Com o projecto PS, chumbado por outras razões pelo Tribunal de Contas, se quiséssemos carregar comboios para qualquer país da Europa para lá de Espanha, teríamos sempre de fazer uma ruptura de carga na plataforma logística prevista para o Poceirão. Isto poderia ser um bom negócio para os accionistas do Poceirão, mas trazia de volta o grave problema logístico e económico que afecta as nossas empresas e portos. Principalmente o de Sines, que é um porto que Deus fez de águas profundas, e por isso habilitado a competir com os portos espanhóis, holandeses e italianos na recepção dos grandes navios Panamax, possíveis pelo alargamento do Canal do Panamá, carregados de mercadorias provenientes do oriente. A nossa localização periférica pode ser uma desvantagem por terra, mas torna-nos no primeiro país para quem chega por mar.

Quem tiver lido o último livro do ministro Álvaro Santos Pereira sabe do que estou a falar, bem como quem se recordar de algumas reportagens mais antigas da TVI, no tempo em que nenhum outro órgão de comunicação social falava de “bitola”, mas apenas de “TGV”. O ministro Gaspar diz que o projecto “Lisboa-Madrid” foi refocalizado nas mercadorias. Ainda bem. Mas isso não significa que a linha fique interdita a passageiros, o que seria absurdo.

Aliás, do ponto-de-vista técnico, pode-se fazer uma linha só para passageiros. O contrário, neste caso, é que não faz sentido. É que são precisamente as mercadorias que tornam mais exigentes e caros os critérios de pendentes (desníveis da linha) da obra.

Resta responder a alguns macacos, desses que nunca estudam nada mas opinam sobre tudo, que se agarram a um último argumento como se fosse o derradeiro galho da floresta: a linha será só de mercadorias porque os comboios de passageiros, para entrar em Lisboa, necessitarão sempre de uma nova ponte, para a qual não há dinheiro. Mais uma vez, esses macacos estão errados. Os comboios de alta velocidade podem entrar na Ponte 25 de Abril pela linha actual. Existem comboios de alta velocidade para passageiros de duplo eixo, que mudam de uma bitola para a outra em andamento. Espanha usou-os durante muitos anos para ligar Madrid a Barcelona. Será que não servem para ligar Lisboa ao Poceirão?

EOS, se um dia chegar a ler-me e a confirmar estes argumentos com quem sabe destas coisas, vai seguramente concluir que as fontes que o convenceram de uma diferença “abissal” entre uma linha em bitola europeia para mercadorias e uma linha para comboios de alta velocidade têm, apenas, uma motivação política.

Passos Coelho, para ganhar eleições, em lugar de atacar as graves fraquezas do projecto do PS, como aquela loucura de uma nova ponte sobre o Tejo em tempos de crise, alinhou pela turba que diabolizou o “TGV”. O problema é que ele agora é Primeiro-Ministro. Mais cedo ou mais tarde, teria de defender em público uma linha de alta velocidade mista até Badajoz, porque a negociou com Espanha e Bruxelas.

Como nunca admitirá que antes de ser PM era mais um macaco a falar de comboios, Passos Coelho anda a tentar arranjar macacos que digam que a linha dele não terá comboios de alta velocidade de passageiros. Não? Mesmo que apareça um operador ferroviário privado, ou ligado ao estado Espanhol, interessado? Mas alguém acredita que a ligação Santa Apolónia – Chamartin vai continuar na linha actual quando estiver construída a Linha Lisboa-Badajoz-Madrid? Porquê? Acharão todos os passageiros mais sexy passar a noite num comboio?

Uma linha de alta velocidade só para mercadorias, como escreveu a SIC em reacção à notícia da TVI, é propaganda política que não pode ser levada a sério. Essa, sim, é uma abissal parvoíce.

P.S. Hoje, o director do Diário Económico vai mais longe e diz que a TVI deu "uma não-notícia".Ele é que fez um não-editorial.

TVI, DEZEMBRO 2009

sábado, 4 de junho de 2011

POR QUE VOTO

Tenho dificuldade em votar, sempre tive.

Optei há muito por uma profissão que me obriga a esmiuçar antes de decidir. A carga de informação a que fui sujeito – a que posso reproduzir e a que não posso, por não conseguir prová-la – impede-me de adesões “militantes” a qualquer partido. A realidade, caros amigos, é para mim muito complexa.

Poderia decidir-me por razões “ideológicas”, ou posicionar-me de acordo com a velha cartilha esquerda / direita. Não escondo a minha admiração pelas pessoas inteligentes e sérias que conheço em todos os partidos. Tenho até uma certa ponta de inveja pelo facto de terem alcançado uma síntese, um posicionamento político, o que para mim continua a ser dramático. As informações e leituras profissionais a que fui sujeito, à procura das causas das coisas, de explicações em vez de slogans, impedem-me de alcançar esse conforto. Julgo, sem hipocrisia, que tenho uma dificuldade de entendimento: não consigo simplificar a política. Costumo dizer, por brincadeira, que por pior tratamento que tenha dado ao cérebro ainda tenho células resistentes nos dois hemisférios. Por exemplo, sou mais à esquerda quanto aos sistemas de Saúde e mais à direita nos sistemas de Educação. E a minha maior certeza é a de estar disposto a evoluir de posição. A segunda maior é a de que serão necessários factos para isso.

Durante muitas eleições, era eu mais jovem, fui abstencionista militante. Não, não me abstinha por falta de interesse na Democracia e menos ainda por querer combatê-la. Simplesmente, confrontado na minha actividade profissional com tanta e tanta porcaria, preferia não ver, sequer, o meu nome riscado nos cadernos eleitorais. Mais ainda do que fugir a um “compromisso” eu queria isentar-me de responsabilidades. Não votando, ninguém podia considerar-me suspeito de cumplicidade nas trafulhices a que fui assistindo, algumas das quais me calhou noticiar.

A pequena notícia é que mudei radicalmente de atitude. Domingo vou votar e vou votar num partido do arco parlamentar. Não pretendo divulgar o meu sentido de voto, até porque não estarei nunca completamente seguro dele. Para ser verdadeiro, ponderei diferentes partidos. Mas quero partilhar que eu, abstencionista militante, sinto um grande dever de votar “dentro”. Por mais que isso ainda me custe, vou escolher um partido com condições para eleger deputados.

O que se passou em Portugal nestes anos é demasiado grave. Naquela época feliz em que fui abstencionista, o que nos aconteceu enquanto comunidade, por mais defeitos e problemas que já tivéssemos, era para mim inimaginável. Na Economia, claro, mas também na Justiça, na Saúde (sim, na Saúde!), nos negócios do Estado, no esmagamento das independências, até na comunicação social.

À minha profissão convém uma certa discrição, sobretudo em Portugal, um país onde muitas pessoas ainda confundem independência com um relativismo totalitário, sem qualquer conteúdo moral. Eu não escapo a essas facas. Mas o tempo, sobretudo o futuro, não está para hipocrisias ou calculismos.

Parece-me urgente e absolutamente necessário cada homem e mulher livre dizer ruidosamente aos políticos que não vale tudo. Que muitas instituições democráticas e muitas personalidades cobardes podem ter falhado no seu dever de proteger a Democracia, mas nós não. Nós vamos correr com quem nos quis controlar e nos guiou, a nós e aos nossos que estão a nascer, para muitos anos de sacrifícios evitáveis. Nós vamos mostrar a todos, os culpados e os cúmplices, que nos fazemos respeitar com as poucas armas que nos restam. Nós vamos mostrar que existimos.

Sócrates e o seu exército de colaboracionistas têm esse mérito: transformaram-me num eleitor compulsivo. Como não acredito que ele alguma vez mude, posso dizer que enquanto ele existir eu não falho uma mesa de voto.

Pensando bem, não mudei assim tanto. Sonho até com o dia em que possa voltar a ficar tranquilamente em casa, a fazer notícias e a ouvir música.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A DANÇA FÚNEBRE

«Bem-vindo, Poul Thomsen, trazei dinheiro para as nossas dívidas, mas sobretudo trazei pujança contra esta cagança e bom-senso para a nossa liderança. Os que cá estão endoideceram. Continuam a falar de um país que já não existe. E a que eles próprios ajudaram a cavar a sepultura, dançando agora sobre ela, sem pudor nem decência.
(...)
Em vez de uma marcha fúnebre, temos um cortejo de carnaval. José Sócrates conseguiu, dois dias depois de o País se ajoelhar, produzir o seu mais irreal discurso de sempre. O Congresso do PS encenou um triunfalismo que é ofensivo para um País intervencionado. Foi um delírio colectivo triste, um comício com o fanatismo de Vasco Gonçalves, uma propaganda alucinógena. Leni Riefenstahl, a cineasta de Hitler, ter-se-ia comovido.»

Pedro Santos Guerreiro
Jornal de Negócios

sábado, 9 de abril de 2011

PARA COMPREENDER DE VEZ O "CONGRESSO" E AS "NOTÍCIAS"

« Bom, dado o que está em causa é tão só o futuro dos nossos filhos
e a própria sobrevivência da democracia em Portugal, não me parece
exagerado perder algum tempo a desmontar a máquina de propaganda dos bandidos
que se apoderaram do nosso país. Já sei que alguns de vós
estão fartos de ouvir falar disto e não querem saber, que sou
deprimente, etc, mas é importante perceberem que o que nos vai
acontecer é, sobretudo, nossa responsabilidade porque não quisemos
saber durante demasiado tempo e agora estamos com um pé dentro do
abismo e já não há possibilidade de escapar.

Estou convencido que aquilo a que assistimos nos últimos dias é uma
verdadeira operação militar e um crime contra a pátria (mais um). Como
sabem há muito que ando nos mercados (quantos dos analistas que dizem
disparates nas TVs alguma vez estiveram nos ditos mercados?) e
acompanho com especial preocupação (o meu Pai diria obsessão) a
situação portuguesa há vários anos. Algumas verdades inconvenientes
não batem certo com a "narrativa" socialista há muito preparada e
agora posta em marcha pela comunicação social como uma verdadeira
operação de PsyOps, montada pelo círculo íntimo do bandido e executada
pelos jornalistas e comentadores "amigos" e dependentes das prebendas
do poder (quase todos infelizmente, dado o estado do "jornalismo" que
temos).

Ora acredito que o plano de operações desta gente não deve andar muito
longe disto:

Narrativa: Se Portugal aprovasse o PEC IV não haveria nenhum resgate.

Verdade: Portugal já está ligado à máquina há mais de 1 ano (O BCE
todos os dias salva a banca nacional de ter que fechar as portas
dando-lhe liquidez e compra obrigações Portuguesas que mais ninguém
quer - senão já teriamos taxas de juro nos 20% ou mais). Ora esta
situação não se podia continuar a arrastar, como é óbvio. Portugal tem
que fazer o rollover de muitos milhares de milhões em dívida já daqui
a umas semanas só para poder pagar salários! Sócrates sabe
perfeitamente que isso é impossível e que estávamos no fim da corda.
O resto é calculismo político e teatro. Como sempre fez.

Narrativa: Sócrates estava a defender Portugal e com ele não entrava
cá o FMI.
Verdade: Portugal é que tem de se defender deste criminoso
louco que levou o país para a ruína (há muito antecipada como todos
sabem). A diabolização do FMI é mais uma táctica dos spin doctors de
Sócrates. O FMI fará sempre parte de qualquer resgate, seja o do
mecanismo do EFSF (que é o que está em vigor e foi usado pela Irlanda
e pela Grécia), seja o do ESM (que está ainda em discussão entre os 27
e não se sabe quando, nem se, nem como irá ser aprovado).
Narrativa: Estava tudo a correr tão bem e Portugal estava fora de
perigo mas vieram estes "irresponsáveis" estragar tudo. Verdade:
Perguntem aos contabilistas do BCE e da Comissão que cá estiveram a
ver as contas quanto é que é o real buraco nas contas do Estado e vão
cair para o lado (a seu tempo isto tudo se saberá). Alguém
sinceramente fica surpreendido por descobrir que as finanças públicas
estão todas marteladas e que os papéis que os socráticos enviam para
Bruxelas para mostrar que são bons alunos não têm credibilidade
nenhuma? E acham que lá em Bruxelas são todos parvos e não começam a
desconfiar de tanto óasis em Portugal? Recordo que uma das razões pela
qual a Grécia não contou com muita solidariedade alemã foi por ter
martelado as contas sistematicamente, minando toda a confiança. Acham
que a Goldman Sachs só fez swaps contabilísticos com Atenas? E todos
sabemos que o engº relativo é um tipo rigoroso, estudioso e duma ética
e honestidade à prova de bala, certo?

Narrativa: Os mercados castigaram Portugal devido à crise política
desencadeada pela oposição. Agora, com muita pena do incansável
patriota Sócrates, vem aí o resgate que seria desnecessário.

Verdade: É óbvio que os mercados não gostaram de ver o PEC chumbado (e que não
tinha que ser votado, muito menos agora, mas isso leva-nos a outro
ponto), mas o que eles querem saber é se a oposição vai ou não cumprir
as metas acordadas à socapa por Sócrates em Bruxelas (deliberadamente
feito como se fosse uma operação secreta porque esse aspecto era peça
essencial da sua encenação). E já todos cá dentro e lá fora sabem que
o PSD e CDS vão viabilizar as medidas de austeridade e muito mais. É
impressionante como a máquina do governo conseguiu passar a mensagem
lá para fora que a oposição não aceitava mais austeridade. Essa
desinformação deliberada é que prejudica o país lá fora porque cria
inquietação artificial sobre as metas da austeridade. Mesmo assim os
mercados não tiveram nenhuma reacção intempestiva porque o que os
preocupa é apenas as metas. Mais nada. O resto é folclore para consumo
interno. E, tal como a queda do governo e o resgate iminente não foram
surpresa para mim, também não o foram para os mercados, que já
contavam com isto há muito (basta ver um gráfico dos CDS sobre
Portugal nos últimos 2 anos, e especialmente nos últimos meses).
Porque é que os media não dizem que a bolsa lisboeta subiu mais de 1%
no dia a seguir à queda? Simples, porque não convém para a narrativa
que querem vender ao nosso povo facilmente manipulável (julgam eles
depois de 6 anos a fazê-lo impunemente).

Bom, há sempre mais pontos da narrativa para desmascarar mas não sei
se isto é útil para alguém ou se é já óbvio para todos. E como é 5ª
feira e estou a ficar irritado só a escrever sobre este assunto
termino por aqui. Se quiserem que eu vá escrevendo mais digam, porque
isto dá muito trabalho».

Henrique Medina Carreira.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Jornalismo Lello

Primeiro dia de campanha eleitoral. As televisões dão pancada na oposição e tratam o Governo como vítima. O nosso mal não são seis anos de total descontrolo da despesa, com a propaganda no lugar de um Projecto, sem crescimento. O nosso mal foi a tarde de ontem. Por causa da tarde de ontem há desempregados, os velhos não podem comprar medicamentos, o IVA subiu e os juros também, as pensões são miseráveis e os "ferroviários" - eu juro que ouvi isto - podem ficar sem emprego. Tudo esmiuçado em reportagens com três ministros e cinco deputados do PS lá dentro, a exercer o tal contraditório da imprensa disponível. A narrativa é mais infantil do que uma aventura do rato Mickey. O herói levou muita pancada, mas ainda pode renascer das cinzas para nos salvar. O jornalismo vê Portugal e o Mundo com aqueles óculos do José Lello, e pisca-nos o olho.

domingo, 13 de março de 2011

A DESCIDA

Sinto-me como aquele surfista resgatado ao mar alto no fim de três dias em cima de uma prancha. Enfrentei o perigo de um Maelstrom de gente na Avenida e sobrevivi. A minha felicidade é maior porque me portei com definitiva irresponsabilidade. Eu segui, sem ter aprendido nada com a desgraça deles, os marinheiros fanfarrões de Poe, mortos e engolidos no vórtice por infantil temeridade. Soares, Pacheco e o Miguel da TV, que são os meus melhores amigos porque são os maiores amigos de toda a gente, avisaram-me. O vórtice era antidemocrático. Era fascista. O vórtice, supremo perigo, não sabe escrever e eu também me atrevo a gostar tanto de textos bem escritos. O vórtice ia dar cabo de mim e ia dar cabo disto. E só aqueles três distintos amigos podem criticar isto e criticar-se entre eles, porque só eles forjaram nos livros deles, nas históricas acções fundadoras deles, nos comentários, cópias da chave secreta que regula o funcionamento disto e põe tudo a funcionar. Eles avisaram-me mas eu fui.

Quando embarquei no batel que me levaria ao vórtice olhei uma última vez a minha praia. Vi os prédios do largo da Graça que hão-de ruir como baralhos de cartas quando chegar o sismo porque os fiscais disto tudo se estão nas tintas e os meus três amigos ainda não tiveram tempo para ler os livros que anunciam a grande matança. Pensei no meu cão, se já teria idade para sobreviver sem mim. Vi-o amanhã, deitado ao lado do mendigo da Moviflor, depois de almoçar um pedacinho de carne no restaurante do tio David, que voou do balcão entre lágrimas de saudades minhas. Li essas manchetes de Abril, em todas as bancas de jornais. Todas lamentavam a destruição disto, que apesar da poluição, da corrupção, do pequeno pinóquio e de todo o veneno sempre é uma praia muito bonita. Uma praia sem palmeiras, é certo, onde a sombra só chega para uma minoria dormir descansada, em que não há sequer peixe para todos mas cada um ainda tem a espinha que lhe cabe por direito, mérito e condição.

Quando o batel desceu a encosta e deixou para trás o meu bairro lembrei-me de que ainda na semana passada jantei uma lampreia sem agradecer a quem a teria pescado. Foi esse o argumento derradeiro dos três amigos: esta odisseia criminosa ainda se perdoava a uns, se fossem poucos, desgraçados, mas não a mim. Quem ainda pode pagar uma ou duas lampreias por época sem molhar as mãos na água não devia enfrentar a morte e deixar o nome escrito no memorial dos que deram cabo disto. Na praia há contratos, maiores do que alcança a própria distância, e eu sempre tenho um. Na praia trezentos amigos fazem negócios, mas ainda me pagam um “ordenado”. Na praia eu posso falar ao telefone, como eles. Na praia, quando falam demais, dois amigos falam com outros e limpam para sempre as conversas, mas eu também já fui ilibado. E não, não me ponha a pensar, porque há gaivotas em terra e armas para as abater a tiro, não me ponha a pensar se a sentença foi justa, porque na praia somos todos culpados. Na praia basta saber ler. Se está escrito que somos livres, somos. Se no livro das juras os juízes são independentes como os moleiros e os jornalistas livres como pardais, são. Na praia pão é pão, gasolina é energia, vento e ondas do mar, reformar é sempre bom, televisão é verdade e política é espectáculo. Se eu janto lampreia, que assista em silêncio ao acto.

Desembarquei no vórtice cansado de tanto pensar e, como as baleias e o urso de Poe, com o espanto natural de um bicho pesado mas obediente a Behaviour, o grande pescador imaginário. Eu ia participar no grande espectáculo alternativo à política, a que não poderia sobreviver. Havia gente e outra gente que cantava, mas o urso também fez ouvir a sua morte da falésia às escarpas e todos recordam essa música em pesadelos. Vi a seguir as câmaras que por momentos tinham abandonado o Miguel e estremeci de pena. Depois reparei que fotografias com 37 anos ganhavam vida, como se isso fosse possível, sem o comboio do Soares ter chegado, nem a cara bolachuda dele aos cartazes. Pensei quanto tempo teríamos até o asfalto se abrir para nos engolir e que o céu desabasse. Senti-me culpado por tanta ignorância e tantas fotografias. Como podia tanta gente abraçar a morte da Democracia com um sorriso e gritar o contrário? Como pôde tanta gente sobreviver, olhar-me com o brilho cúmplice que deve ser o dos criminosos e ter regressado à praia, o que só pode ser lido, interpretado e comentado como uma ameaça?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

OS PERITOS DO FREEPORT

O Ministério Público nomeou um instituto público, tutelado pelo ministro da Obras Públicas e um ambientalista nomeado pelo ministro do Ambiente para realizar as perícias ambientais e urbanística do inquérito Freeport (NOTÍCIA TVI).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

ÀS VOLTAS NO SNS


Nunca fui um entusiasta dos casos particulares no jornalismo, pese embora trabalhar na televisão. Mas a saga de Rui Baptista no Serviço Nacional de Saúde parece-me particularmente luminosa na sua tragédia. Cá temos um pequeno retrato de um paradigma de governação estafado que despeja dinheiro sobre os problemas, sem os resolver. Quanto se desperdiçou com a gripe A, que mata menos do que a gripe normal? Só em vacinas, cuja eficácia não estava e não está demonstrada, foram 45 milhões. O que se poderia fazer com esse dinheiro? E quanto se pouparia se houvesse regras mínimas, por exemplo, de prescrição? É permitido receitar no ambulatório quatro antibióticos em quatro dias (até quinolonas). É permitido atender um doente uma, duas, três, quatro, cinco vezes sem o examinar seriamente e, já agora, tratar. Claro que assim os hospitais privados podem cobrar o que quiserem. Pela prosaica razão de que ninguém está disposto a morrer aos 28 anos porque o sistema informático está avariado, porque o aparelho de medir oxigénio está fechado e a médica não tem a chave, porque chamadas telefónicas e um roteiro turístico pelos centros de saúde não curam ninguém.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

PARA MEMÓRIA FUTURA

"Sim, houve participação governamental (em particular com origem no primeiro-ministro e executada por quadros do PS colocados em posições cimeiras em empresas em que o Estado tem qualquer forma de participação directa ou indirecta) numa tentativa de, em ano eleitoral, controlar vários órgãos de comunicação social, nomeadamente a TVI".

"Sim, o primeiro-ministro sabia, foi informado pessoalmente do que se passava e, por via indirecta, conhecemos indicações suas sobre o modo como os executantes deviam proceder. E, por isso, mentiu ao Parlamento. Ele não queria ter a fama (de controlar a comunicação social), sem ter o proveito (de a controlar de facto) e procedeu e permitiu que procedessem em consequência, conforme as suas intenções publicamente anunciadas no congresso do PS."

Pacheco Pereira, Deputado

Terminou a comissão de inquérito. A desconsideração que a maioria dos portugueses tem pela Liberdade, permitiu o que permitiu. Está feito. Mas não teria valido a pena sancionar o precedente claramente, por um futuro mais limpo? Pergunto-me se os militantes socialistas, os deputados socialistas e os socialistas em geral pensarão nisso. E quando um dia outra maioria se apoderar do Estado e aproveitar a espantosa vulnerabilidade das "grandes empresas" para diminuir as notícias e impôr a sua propaganda? Estarei, como jornalista, disposto a ouvi-los - a quase todos, porque a paciência tem limites.

FRASES QUE IMPÕEM RESPEITO

"O SENHOR DEPUTADO RICARDO RODRIGUES É MENTIROSO."

"A VERDADE NÃO SE ESCONDE NO BOLSO."


João Semedo, Deputado.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

FOI O ESTADO DE NECESSIDADE

"Irreflectidamente, tomei posse de dois equipamentos de gravação digital"



"O senhor primeiro-ministro não mentiu e o Governo não interferiu no negócio da PT com a TVI"






domingo, 30 de maio de 2010

FIGO É UM FIGO, NÃO É CHICO



Afinal a história está mal contada. Não foi Chico Buarque que quis conhecer o primeiro-ministro na sua viagem ao Brasil, como foi divulgado pela imprensa portuguesa. Foi José Sócrates que pediu esse encontro. "Foi o vosso ministro que pediu o encontro. Aliás, nem fazia muito sentido eu pedir um encontro e o vosso primeiro-ministro vir ter à minha casa", disse o músico e escritor brasileiro ao PÚBLICO, através de correio electrónico. Chico Buarque ficou bastante indignado ao saber que a imprensa nacional estava a contar uma versão bastante diferente.