Se contar com o jornal da Biblioteca Infantil e Juvenil de Viana do Castelo, o jornal do liceu que dava uma bronca a cada número, mais os relatos de hóquei e os directos de bobine ao ombro na Rádio Alto Minho, já sou jornalista há uns 30 anos.
Foi "O Independente", à saída da faculdade, que meu deu uma carteira profissional. Entrei no jornal que para mim era o jornal porque comprei um bilhete de comboio. No lugar ao lado do Intercidades, nessa sexta-feira, estou a ver o Pedro Loureiro, aspecto desarrumado de gajo porreiro. Abri a edição dessa semana e ele fez "play" num CD, ainda por editar, dos Bandemónio.
Foi ele que meteu conversa. Perguntou-me se podia ver o jornal. Respondi sim, toma lá, os jornais foram feitos para serem lidos, ainda mais do que comprados, com aquela arrogância de quem anda a estudar jornalismo. E aproveitei para lhe sacar os "headphones" e o Pedro Abrunhosa, que um gajo a estudar a 370 km de casa aprende a ser descarado. O Pedro, um dia eu conto, meteu-me lá, meteu-me nisto. Foi ele, fotógrafo de "O Independente" e passageiro da mesma viagem, o culpado.
No jornal aprendi o que é uma notícia. No segundo andar da Redacção havia uma folha A4 colada ao vidro do aquário. Já não me lembro dos termos exactos, mas era mais ou menos: "Notícia é o que um jornalista tem boas razões para contar e alguém tem boas razões para não querer que se saiba". A frase, por mais elaborada que fosse nos termos originais, não despertava sobressaltos. Eu e os outros jornalistas trabalhávamos rodeados de jornalistas e leitores que pensavam assim. Renegar as notícias seria absurdo.
Ainda hoje me lembro dessa frase sem sobressaltos mas estou cada vez mais só. Ao longo destes anos o ambiente mudou: a regra tornou-se excepção. A maioria das notícias, hoje em dia, são o que alguém quer que se saiba. Até se fazem manchetes de grandes jornais que não são novidade, não são notícia, pela simples razão de que alguém quer muito que se saiba.
Esse alguém não é o povo (já quase soa estranha, este palavra) consumidor de jornais. O jornalismo institucionalizou-se. Os jornalistas arranjam empregos com os políticos, comem à mesa dos banqueiros, frequentam as mesmas lojas, realizam-se com ascensões socias estranhas à profissão. Muitos jornalistas começaram a fazer parte daquela entidade a que o povo (não tenhamos medo dela) chama "eles".
Ao mesmo tempo, os factos foram substituídos por uma sofisticada retórica de "objectividade" e "equilíbrio" - totalitária - e por um processo de intenções ao menor desvio. As notícias já não são julgadas por serem verdadeiras ou falsas, mas por serem "a favor" ou "contra". A realidade foi disciplinada como a classe: não investigarás, dirás o que eu te digo; quando, por azar, não tiver sido eu a dizer-te, escreverás "alegadamente".
Não contem comigo para essa merda. Eu faço notícias e olho as pessoas do meu bairro nos olhos. Prefiro trocar de profissão a fazer outra coisa. Podem até obrigar-me a mudar de vida mas jamais a renegar a que tenho há 30 anos.