Sobre a gripe A, as notícias e as políticas de informação e de saúde do governo, entrei em moderado debate com Carlos Arroz, médico e sindicalista que respeito e autor de um "blog" que me dá prazer ler (aqui está um articulista desperdiçado pela nossa imprensa).
Sobre comunicação e política tenho critérios formados ao longo dos anos que me permitem analisar os fenómenos sem me abster de ter opinião. Já sobre a Gripe A, que não estudei nem tratei profissionalmente, sinto-me bastante "verde" e inseguro. Aconteceu o que tinha de acontecer. Levei logo uma porrada à antiga, sobretudo em mensagens trocadas por sms, porque o Carlos Arroz é um cavalheiro mas não perdoa à ignorância e faz muito bem.
Irritado por ter caído na tentação de opinar sem conhecimento "suficiente" de causa desatei a procurar informação de qualidade para as minhas "FAQ", singelas questões que toda a gente andará frequentemente a levantar sobre o assunto sem eu disso me haver apercebido. O meu amigo Arroz aconselhou-me os "sites oficiais", eu aconselhei-o a ler este:
OCHO RAZONES PARA NO VACUNARSE CONTRA LA GRIPE A
Por Juan Gérvas,
Médico general rural, Canencia de la Sierra, Garganta de los Montes y El Cuadrón (Madrid, España), profesor de atención primaria en Salud Internacional (Escuela Nacional de Sanidad, Madrid) y profesor en Salud Pública (Facultad de Medicina, Universidad Autónoma, Madrid)
É um contributo que me parece sério. As questões, FAQ ou não, para mim são três:
1) Esta gripe causa maior mortalidade e morbilidade do que a sazonal?
2) Causa maior mortalidade e morbilidade em crianças, jovens e grávidas, ou outros grupos imprevistos?
3) Está demonstrado o benefício de tomar a vacina?
Respondidas a estas três, podemos enfrentar a questão decisiva:
4) O tratamento comunicacional e os meios alocados pelas autoridades de Saúde ao combate à Gripe A justificam-se, considerando o universo de problemas e a eficiência que deve ser especialmente exigida a uma política de saúde?
Se a estatística confirmar as afirmações do Prof. Juan Gérvas, as repostas são:
Não, não, não e... NÃO!
domingo, 29 de novembro de 2009
sábado, 28 de novembro de 2009
112: UM PROBLEMA QUE NÃO SE RESOLVE

Há pouco mais de um ano, no então Jornal Nacional de Sexta, tratei várias vezes o problema das chamadas perdidas do INEM (deixei neste espaço alguns comentários ao assunto, aqui e aqui).
O JN de Sexta pôs no ar várias peças documentadas com fotografias como esta (referente ao turno 8H/16H de quinta-feira do Centro de Orientação de Doentes de Lisboa). Mas tive ainda espaço (tempo) no jornal para uma extensa reportagem em que bombeiros, polícias e vários cidadãos contavam experiências dramáticas com o INEM. Já não disponho do "link", mas recordo-me que eram dez minutos de televisão apocalípticos. Um pai que ficou uma hora à espera de ambulância com uma criança trancada no carro depois do acidente; um filho que viu o pai morrer de enfarte sem conseguir socorro; bombeiros que andaram perdidos à procura de uma mulher desmaiada porque o INEM os mandou para uma igreja errada; polícias da central 112 a sofrerem em directo as reclamações de cidadãos furiosos porque as chamadas caíam quando eram encaminhadas para o CODU; médicos da central em pânico porque uma mulher tomara uma caixa de comprimidos e não morava na rua para a qual o sistema informático "enviara" os bombeiros.
Como os factos eram graves mas não envolviam directamente políticos, banqueiros ou outros seres poderosos no mundo dos negócios ninguém se atreveu a chamar "sensacionalista" a uma reportagem que era, de facto, um turbilhão de emoções e um verdadeiro murro no estômago. Senti eu a pancada, ao presenciar a indignidade extrema da situação e a revolta de pessoas indefesas; e sentiram-na, seguramente, todos os espectadores com critério cívivo e independente de partidarismos.
Abílio Gomes, um tenente-coronel que não conhecia e não conheço, com uma respeitável carreira militar, tinha acabado de chegar à presidência do INEM. Por mero acaso, estreava-se com uma crise mediática que devia ter estoirado antes, porque a contratação de um sistema informático duvidoso e a redução de pessoal do CODU haviam sido decisões do anterior conselho directivo, chefiado pelo médico Luís Cunha Ribeiro, que entretanto transitou para conselheiro do secretário de Estado da saúde Manuel Pizarro.
Confesso-vos que tive esperança, como cidadão, que o novo presidente do INEM percebesse a inaceitável gravidade diária da situação e tomasse todas as medidas necessárias para a resolver, custassem o que custassem em termos financeiros ou de pequena política do Ministério da Saúde. Recordo-me de lhe fazer chegar a mensagem de que as notícias não eram "contra" ele, ou provenientes de algum lobby apostado em queimá-lo à nascença. A carreira militar e as referências elogiosas de algumas pessoas que o conhecem levaram-me a acreditar profundamente que o problema iria ser resolvido.
Abílio Gomes só me decepcionou quando, chamado ao Parlamento, optou por um discurso justificativo. Disse então que não havia chamadas perdidas no INEM e que as chamadas eram "desligadas" pelos contactantes, devido ao "tempo psicológico" de quem passa por situações de urgência. As pessoas que eu tinha entrevistado - e eu próprio, que uma vez pedi socorro para um carro caído numa ravina e não fui atendido - acabavam responsabilizadas depois de terem sido vítimas. Recordo que algumas me telefonaram, interessadas em responder na televisão ao presidente do INEM. Entendi totalmente a indignação, mas acabei por não concretizar a ideia, que me pareceu excessiva depois de tantas peças a denunciar o assunto. O INEM decidira lançar uma auditoria interna ao sistema informático e eu confiei que tudo se encaminharia para uma solução definitiva. Pareceu-me adequado deixar o novo Conselho Directivo trabalhar em paz, aliviando, na parte que me cabia, a pressão mediática.
Houve mais um sinal negativo, que foi a retirada do sistema informático do CODU dos indicadores de qualidade e resposta que se podem ver na fotografia, fruto de um reaparecimento que julgo saber furtuito esta semana. Para além da auditoria, o INEM lançou um concurso para a contratação de mais operadores de atendimento e introduziu algumas novidades ao sistema informático do CODU, como o call back, um instrumento que me parece discutível em emergência médica se usado sistematicamente, como acontece.
Acho que errei por omissão ao longo de um ano. Objectivamente, o INEM pode até ter melhorado alguma coisa, mas não resolveu o problema, como se pode ver nesta reportagem de quinta-feira.
Palavra de honra que preferia não ter de dar estas notícias.
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