sábado, 6 de março de 2010

O SEGREDO, O PROJECTO E A ASSINATURA

NOTÍCIA TVI

PROCURADORIA SOB SUSPEITA

O despacho do procurador-geral da República que iliba José Sócrates de suspeitas de crime de «Atentado ao Estado de Direito» chegou a várias redacções ainda antes de ser assinado.
A eventual violação do segredo de justiça pode, por isso, ter tido origem na própria Procuradoria-Geral da República, antes de Fernando Pinto Monteiro ter remetido o seu despacho para o Tribunal de Aveiro.
Ou seja, a ser assim, a fuga ao segredo de justiça teria tido origem no gabinete do próprio Pinto Monteiro, ou de terceiras pessoas a quem tivesse dado prévio conhecimento das suas conclusões jurídicas.
Confrontado pela TVI, Pinto Monteiro refere apenas que «uma coisa é o projecto de despacho, outra é o despacho propriamente dito, que pode ter alterações».
Por outro lado, o jornal Correio da Manhã refere que o procurador-geral da República fez assinaturas diferentes nas cópias do seu despacho que remeteu, formalmente, a outros actores judiciais, com o alegado objectivo de despistar a origem de eventuais fugas ao segredo de justiça.
Ora, nos termos do seu despacho, Pinto Monteiro remeteu cópias ao procurador-distrital de Coimbra, Braga Themido, e ao próprio presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento.
A TVI perguntou a Pinto Monteiro se, de facto, assinou essas cópias de forma diferente por desconfiar de posteriores violações ao segredo de justiça. «A notícia do Correio da Manhã, tal como está escrita, não corresponde à verdade», foi a resposta do procurador-geral da República.


Perguntas enviadas pela TVI a Pinto Monteiro:

1) Confirma que, como hoje noticia o Correio da Manhã, fez assinaturas diferentes na versão original desse despacho, remetido ao processo conhecido como "Face Oculta" e nas cópias enviadas ao Procurador-Geral Distrital de Coimbra e ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça?
2) As diferentes assinaturas tiveram por objectivo marcar eventuais e ulteriores violações do Segredo de Justiça?
3) Enviou a alguma entidade uma versão do despacho antes de a assinar?
4) Tem alguma explicação para o facto de alguns órgãos de comunicação social terem recebido o referido despacho numa versão sem assinatura?

Resposta da Procuradoria-Geral da República:

"Uma coisa é o projecto de despacho, outra é o despacho propriamente dito, que pode ter alterações.
A notícia do Correio da Manhã, tal como está escrita, não corresponde à verdade".

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O FIM DA MAGIA

Em Setembro, pouco antes das eleições, escrevi aqui um "post" inofensivo como os outros, com este título e a fotografia de José Sócrates a fingir controlar o derrube de um torre em Tróia.

Juntei-lhe um excerto do "Índio", de Caetano Veloso, que decorei desde a primeira audição:

E aquilo que nesse momento/ Se revelará aos povos / Surpreenderá a todos / não por ser exótico / Mas pelo facto de poder ter sempre estado oculto /Quando terá sido / o Óbvio

Uns tontos do 24 horas, que na altura publicaram as maiores falsidades de que tenho memória, escreveram no jornal deles, sem me perguntar nada, que se tratava do meu comentário à suspensão do Jornal Nacional de Sexta. Não era. Como não tenho vocação de professor primário deixei passar.

Acredito que agora até eles percebam a encenação, a vergonha e o erro.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

PORTUGUESES

A profissão mudou-me o pensamento como eu não era capaz de imaginar, para o pior e para o melhor.

Eu hoje sei que este país é uma teia desqualificada de tráfico de influências e ignorância, uma merda poderosa como o fascismo.

Mas também conheci portugueses à séria. Gente que trabalha, estuda e consegue manter o emprego sem partir a coluna, a face e a dignidade.

Esta reportagem permitiu-me conhecer vários, o que para mim é sempre uma grande notícia.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O TGV (4)

"Lisboa pode, por exemplo, transformar-se na praia de Madrid. Enfim, temos condições turísticas, as condições que nós temos para desportos novos, como o surf (...)"

"Quando o comboio foi introduzido no Século XIX provavelmente as carroças, que eram puxadas a cavalos caíram e se calhar na altura os agentes económicos que estavam ligados à exploração das carroças, e que levavam as pessoas, ficaram extremamente tristes, e todas as indústrias que estavam associadas, a indústria da palha, por exemplo, reparem, os industriais que estavam preocupados com o abastecimento da palha para os cavalos ficaram preocupadíssimos, porque de facto a sua indústria caíu"

António Mendonça, Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações

sábado, 9 de janeiro de 2010

A VINGANÇA

Conta o "Sol", melhor jornal português da actualidade, que os "ferristas" (sic) ficaram muito, mas mesmo muito "indignados", com a possibilidade de o ministro da Justiça ter convidado Souto Moura para presidente do Centro de Estudos Judiciários. Os socialistas-ferristas, apesar do caso andar há tanto tempo embrulhado no tribunal que já ninguém suporta ouvir falar dele, "não se esquecem do Processo Casa Pia".

O ex-PGR tornou-se um alvo a abater desde o momento em que revelou independência. Para os socialistas-ferristas ele devia, obviamente, ter chamado os magistrados que investigaram o caso e obrigá-los a enterrar à nascença qualquer investigação às denúncias feitas no processo por menores da Casa Pia contra socialistas-ferristas ou outros políticos aproximados.

Claro que isso teria sido uma violação grosseira à autonomia desses magistrados, legalmente consagrada, aos mais elementares direitos de personalidade dos denunciantes, constitucionalmente garantidos, e à mais indispensável regra democrática, alegadamente conquistada no 25 de Abril, de que somos todos iguais perante a lei. Pormenores, para os socialistas-ferristas, eventualmente interessantes para erguer como bandeira em discursos e para comentar casos em que os visados são os outros, ou qualquer um de nós. Para os socialistas-ferristas Souto Moura, se fosse um bom PGR, teria agido como eles esperam de um PGR: teria cortado o processo pela raiz, obrigando os magistrados a decapitar os indícios e, caso eles não obedecessem, cortava-lhes de imediato a cabeça.

Como Souto Moura não fez sangue com a cabeça dos outros, serviu-se ele próprio numa bandeja a um poder político que adora carregar a Democracia pela boca mas tribal e vingativo até aos ossos. Como diz o povo, o PGR pôs a cabeça no cepo. Pedro Adão e Silva, socialista-ferrista que fez parte do secretariado do Ferro Rodrigues, quer guerra. O suposto convite, desmentido ao Sol pelo Gabinete de José Sócrates, deixou-o "chocado". A guerra não se faz com desmentidos de primeiro-ministro: a palavra dele, afinal, neste assunto não é suficiente. Adão "duvida" que o convite seja "do agrado" de José Sócrates, mas está convencido de que o ministro Alberto Martins se atreveu a fazê-lo. "Isto parece fazer parte de uma tendência conciliadora que não é boa conselheira", afirma o beligerante.

Não ocorre aos socialistas-ferristas qualquer mérito a Souto Moura para presidir ao CEJ, mesmo que ele tenha chegado a Juiz-Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, degrau mais alto da carreira de um magistrado, e respire os mesmos ares de, por exemplo, um Noronha Nascimento. Adão, um entendido na matéria que anda a ser desperdiçado na política, acha que "os magistrados estão necessitados de uma formação muito diferente". Já Ana Gomes, perita em muitas matérias e nesta também, considera que Souto Moura "não tem vocação nem especial dinamismo" para dirigir uma escola de magistrados.

Souto Moura já pagou a independência com o cargo e com o permanenete enxovalho público, mas terá de continuar a pagar por ela para o resto da vida. Como o juiz Rui Teixeira, a quem os conselheiros designados pelo PS no Conselho Superior da Magistratura quiseram congelar a carreira, sob o aplauso de Ana Gomes e outros socialistas-ferristas. Isso de o juiz ter ganho o recurso em tribunal foi esquecido, mas o processo Casa Pia não. O facto de Paulo Pedroso, Ferro Rodrigues e Jaime Gama terem perdido todos os processos por difamação contra os rapazes que os denunciaram também não tem valor relevante. O processo principal, que como toda a gente sabe correu bem embora lento, não está esquecido.

Souto Moura, se fosse convidado, faria bem em recusar o convite.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O TGV (3)

A comissão parlamentar de Obras Públicas, Transportes e Comunicações aprovou as audições de Manuel Moura, primeiro presidente da RAVE, e de actuais responsáveis da empresa para prestar esclarecimentos sobre o projecto português de alta velocidade ferroviária (TGV).

O requerimento para a audição de Manuel Moura, primeiro presidente da RAVE – Rede Ferroviária de Alta Velocidade, apresentado pelo grupo parlamentar do PSD, foi aprovado por unanimidade durante a reunião de ontem da comissão parlamentar de obras públicas.

O pedido do PSD surgiu depois de, no início de Dezembro, Manuel Moura ter qualificado, em declarações à TVI, o projecto de alta velocidade como um “erro histórico”, que vai sair caro à economia portuguesa.

(Agência Lusa, na íntegra aqui)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O TGV (2)

Comunicação de António Brotas, professor do IST, especialista em Transportes, no dia 13 Dez 2009, no encontro de José Socrates com militantes do PS na FIL:

«Caro Sócrates,

Desejo-lhe dizer 2 ou 3 coisas que escrevi. Entro imediatamente no assunto e leio:

1-Estou convencido que o Governo tem condições para governar e que vai governar 4 anos. As Oposições farão o seu trabalho, umas vezes bem, outras pior, é lá com elas.
O PS só deverá ter uma linha de rumo, um objectivo: governar bem.
Para isso, o conselho que lhe dou é o de que oiça mais o PS.
Não unicamente em encontros como este mas, sobretudo, fomentando, estimulando a actividade, e ouvindo gabinetes de estudo (do PS) que hoje praticamente não existem.

2- Desejo felicita-lo pela decisão anunciada, ontem, do arranque em 2010 das obras da linha de bitola europeia de Caia ao Poceirão, a integrar na futura linha de Lisboa a Madrid.
Esta linha de Lisboa a Madrid vai ser a nossa primeira, mas não única, ligação à rede europeia de bitola europeia. Sem estas ligações o país ficaria uma ilha ferroviária o que seria terrivel para a nossa Economia. O governo socialista deve ser felicitado por dar este primeiro passo para a sua concretização.
Este primeiro troço de Caia ao Poceirão é já muito importante mas, para ser verdadeiramente benéfico a curto prazo, necessita de um pequeno acrescento.
Não tem sentido terminar uma linha de alta velocidade numa plataforma logística, aliás, ainda não construida. Esta linha vinda de Badajoz deve seguir até ao Pinhal Novo onde há uma estação que serve os comboios da FERTAGUS e para o Algarve.
São necessários mais 15 km para a nova linha chegar a esta estação. É a maneira de começar a ser benéfica a muito curto prazo.Para o Poceirão deverá ser feito um (ou mais do que um) desvios laterais para os comboios de mercadorias de baixa velocidade.
Estou certo que se chegará a esta solução quando o assunto for estudado em detalhe.
Enviarei ao Senhor Secretário de Estado dos Transportes dentro de 2 ou 3 dias uma nota sobre este assunto.

3- Um outro assunto paralelo, mas distinto, é o das ligações ferroviárias do porto de Sines.
O Senhor Ministro do Fomento de Espanha veio-nos há dias dizer que a Espanha tem um grande interesse na ligação ao porto de Sines por uma linha de bitola europeia.
Este interesse de Espanha coincide inteiramente com o nosso.
O que precisamos de fazer, quase imediatamente, é uma linha de bitola europeia de Sines ao Poceirão, que assegurará a conveniente ligação a Espanha.
Interessa-nos, além disso, melhorar a ligação por bitola ibérica de Sines ao Poceirão, porque no Poceirão converge a nossa actual rede de bitola ibérica que continuará em funcionamento por mais duas décadas.
O trajecto natural que se impõe para a nova linha é o trajecto directo Norte Sul (já parcialmente estudado). Os elementos expostos parecem indicar que esta linha deva ser uma linha de baixa velocidade, com duas vias, uma de bitola europeia e outra de bitola ibérica, que sirva o litoral alentejano inclusivé para o trânsito de passageiros.
Esta obra está inteiramente ao alcance das nossas empresas, os benefícios serão imediatos e os custos relativamente diminutos.
Em vez disso, a RAVE e a REFER, que não acreditam na migração rápida da rede espanhola da bitola ibérica para a bitola europeia, insistem em fazer uma linha de bitola ibérica de Sines a Évora.
Esta linha é um verdadeiro absurdo que não serve a Espanha e prejudica Portugal, porque deixa Sines com uma péssima ligação à nossa actual rede de bitola ibérica, e porque seria quase um apelo para a Espanha retardar a modernização da sua rêde.
Bem ao contrário, na próxima cimeira de 2010 Portugal deve fazer um apelo a Espanha para não o fazer.»

domingo, 3 de janeiro de 2010

O PROBLEMA DA REALIDADE

«Caros Amigos, chegamos ao fim de 2009 num quadro de completa desilusão. Muitos de nós acreditaram, em 2005, num projecto mobilizador de transformação da sociedade e de modernização do país. Parecia evidente que o PS sob a direcção de JS tinha condições para fazer o país avançar libertando-se da teia dos interesses e rompendo com as capturas corporativas.
Também na Saúde tal pareceu possível. Puro engano».


"SNS", in SaúdeSa

«Acho que há carência de alma e de projecto no país e já não é de hoje».

Vítor Ramalho, presidente do PS - Setúbal

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O 31

Não queira, a sério que não queria, mas estou como o João Gonçalves: este ano foi uma boa merda.

A propaganda aboliu tudo: o mérito, a justiça, o sonho, as liberdades e a Liberdade.

Por mim, não acredito na passagem de ano. Acho que este ano vai ficar aí como cadáver por enterrar. O funeral vai resumir-se ao velório.

O speaker, merecidamente, tomará a palavra: cinco, quatro, três, dois, um, continuamos.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A JUSTIÇA ADMINISTRATIVA

Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz são ouvidos hoje, em audições separadas, na entidade reguladora, para a comunicaçao social (ERC). Mas nem o presidente da ERC, Azeredo Lopes, nem a conselheira, Estrela Serrano, vão estar presentes, por se econtrarem de férias, confirmaram ao CM. Já os conselheiros Assis Ferreira e Luís Gonçalves da Silva interrompem as férias para estar na audição. Ao CM, Assis Ferreira disse : "O presidente do conselho regulador, quando foi votada a proposta deste processo, mostrou logo intenção de não estar presente". Também Estrela Serrano votou contra a abertura deste processo.

1989-2009

Hoje percebo melhor o Sócrates, meu professor de Filosofia no 12º ano. O Sócrates foi o ser mais inteligente que conheci nesta vida.

Apareceu de gabardine azul, guarda-chuva de bico metálico, só metade dos cabelos brancos, sorriso discreto e um ar que era dele. A turma (gosto do termo, na internet deve soar brasileiro) arrumou-se por ali acima, numa sala cheia de cadeiras com tampos corridos de madeira antiga, que subiam em filas paralelas até ao tecto como num anfiteatro.

A turma vestia-se bem. Para ser mais claro, rapazes éramos três. A turma, qual obra divina, fora gerada quase só de meninas adolescentes e giríssimas, as melhores de Viana. Eu tinha aterrado ali, vinha da outra escola. Queria conhecê-las mais a elas do que às lições. As lições à época já se chamavam matéria, nome escabroso que os políticos repetem em discursos e debates para capturar todas as coisas e simular o seu domínio. O único pormenor estranho ao plano colectivo de nos conhecermos uns aos outros era a necessidade de sacar uma notas altas para garantir acesso a um curso de Direito, ou de Direito, Sociologia, Direito e no meu caso de jornalismo em Lisboa. Tinha que ser em Lisboa porque é onde tudo se passa. Não havia telemóveis mas a turma fazia ruído com todas as roupas, todos os cadernos de argolas, todas as palavras e as coisas. A turma era uma gargalhada moderada mas contínua, uma coisa bonita e saudável à séria.


O Sócrates sentou-se e não interrompeu. Foi a primeira vez que, abstendo-se, levou a turma ao comportamento absurdo de se calar sem ordem ou convite. Demorou, claro que demorou, mas fez-se silêncio, um silêncio total e sem sentido. Só depois aquele professor velho, sentado, de gabardine azul ainda engomada e guarda-chuva entretanto arrumado ao canto direito do estrado, se apresentou.

Eu sou o Sócrates, o vosso professor de Filosofia do 12º ano.

A turma era justamente desconfiada de professores velhos, por medo que dificultassem o plano central, urgente e permanente, dia fora e noite dentro, de viver a vida. Nada pode haver de mais justo. Digo-o como se fosse a minha ideologia, sem puto de ironia.

Mas viver a vida, no sofisticado 12º ano de escolaridade, implicava sacar umas notas. Roubar é crime. Sacar, juro que aprendi na escola, não é o seu eufemismo mas um recurso universal. Consistia, à época, em decorar, despejar e não aprender nada. Quem soubesse escrever umas coisas nos testes era íntimo desse expediente. Um bocado de matéria espalhado por frases sem erros não só garantia sucesso escolar como prometia acesso livre de maçadorias ao complexo sistema de títulos académicos, empregos, salários, poder de compra e reconhecimento social dos portugueses. Nada disso era, ainda, demasiado importante. A turma, justamente, queria era festas. Sacava notas e festejava todas as coisas.

Depois da objectiva apresentação do Sócrates tivemos tempo de sentir isto tudo no mais absurdo silêncio. Foi quando ele interrompeu outra vez, para perguntar à turma se tinha perguntas. Recordo-me que foi divertido. Então, como se chama? Fernandes Costa, acho que disse assim mas do nome próprio não estou tão absolutamente seguro. Mas a rapaziada resolveu chamar-me Sócrates, eu até nem me identifico, chamaram-me sem estudar bem o assunto, mas ficou dito, Sócrates.

E Sócrates, contra quase todos os estereótipos de professores divertidos que conhecera até aí, foi o mais rigoroso e científico dos professores. Os testes dele tinham seis perguntas mas podiam ser respondidos numa página A4, de caligrafia grossa. Não dava para despejar, ele só reconhecia a precisão. Culto, conhecia os livros como ninguém. Lúcido, isso não o impediu de saber o que o sistema queria, estudava-o por dentro. Eu não, que o meu curso não requeria, mas várias na turma fizeram a prova específica de Filosofia, uma prova nacional classificada por professores desconhecidos a partir de uma grelha de avaliação fabricada no ministério da Avenida 5 de Outubro. Tiveram todas entre 92 e 98 por cento. Os resultados das alunas do Sócrates foram um acontecimento na escola mas ele quase não ia à sala de professores e fingia nem ouvir os elogios.

Estava como que vocacionado para o isolamento. Poucos amigos e hábitos simples, como a bica antes das aulas. Um dia, num pequeno-almoço no café Kanimambo, sentou-se à minha mesa e perguntou-me se estava mesmo decidido a ser jornalista. Ouviu-me com atenção mas pressenti-lhe o desgosto escondido atrás de uma piada qualquer. Acho que foi aí que me contou que tinha crescido profissionalmente em Lisboa mas fora parar à província. Aconselhou-me a sair daqui. Se quisesse muito fazer jornalismo que trabalhasse como correspondente no estrangeiro. Resisti. Nas aulas tinha aprendido com ele, nuns textos antigos, que as coisas são o que são mas não são ao mesmo tempo. Pensei que isso quisesse dizer que sempre poderiam ser diferentes. Esqueci-me de fazer a síntese, de o valorizar a ele, o espírito de si, o espírito fino dele, no café, sem puto de matéria. Fino e puto (eram assim desconcertantes as expressões dele, nos intervalos de conceitos rigorosos falava por piadas em itálico). Entre duas dentadas num croissant misto prensado, o Sócrates foi o primeiro a avisar-me: isto é o que é e já não vai a tempo de ser diferente.

domingo, 13 de dezembro de 2009

TGV

A "saída da crise" (clicar, reportagem DN/Lusa)
ou um "erro histórico" ? (clicar, reportagem TVI)

Plan Impulso Transporte de Mercancías por Ferrocarril - Adif

E como se faz em Espanha (clicar na imagem, vídeo do governo espanhol)

sábado, 12 de dezembro de 2009

JORNALISMO E MEMÓRIA

« "Dada a precariedade, estarão os jornalistas mais dependentes?

Estamos na época do Jornalismo de 'low-cost'. Em Portugal, as empresas desprezam e desfazem-se dos mais experientes e qualificados. Sabe que o ex-director do "Washington Post", Ben Bradlee, hoje com mais de 80 anos, continua a ir todos os dias para o jornal, onde tem o seu gabinete e é ouvido sobre questões importantes? Em Portugal, não se investe na melhoria dos recursos humanos das redacções. Curiosamente, as empresa de comunicação vão ao mercado buscar jornalistas qualificados. E então temos hoje um cenário curioso: redacções escassas em pessoas e meios e empresas de comunicação bem organizadas. A continuar assim, não é o jornalismo que está em causa - é a própria democracia.

Por que dedica esta obra a João Mesquita?

Era um grande amigo e um jornalista apaixonado de antes quebrar que torcer. Dos incómodos, percebe? Mas, para além disso, foi uma pessoa com quem conversei horas a fio sobre o projecto deste livro. E mesmo na fase da preparação das entrevistas, trocámos muitas impressões. E sempre foi um jornalista e um cidadão muito preocupado com as questões da memória. É nestes momentos que me ocorre aquele fragmento do Mário Sá-Carneiro: "Morrem cedo os que os deuses amam". »


João Figueira, autor de "Jornalismo em Liberdade", in JN

P.S.: Todos os dias me lembro do João, como me lembro do Torcato. Preferia lembrá-los só pelas infinitas memórias pessoais que me deixaram. Mas lembro-me muito deles por causa do desgraçado momento que este país e a nossa profissão atravessam. CE

domingo, 29 de novembro de 2009

GRIPE A: NOTÍCIAS, SAÚDE PÚBLICA E PROPAGANDA

Sobre a gripe A, as notícias e as políticas de informação e de saúde do governo, entrei em moderado debate com Carlos Arroz, médico e sindicalista que respeito e autor de um "blog" que me dá prazer ler (aqui está um articulista desperdiçado pela nossa imprensa).

Sobre comunicação e política tenho critérios formados ao longo dos anos que me permitem analisar os fenómenos sem me abster de ter opinião. Já sobre a Gripe A, que não estudei nem tratei profissionalmente, sinto-me bastante "verde" e inseguro. Aconteceu o que tinha de acontecer. Levei logo uma porrada à antiga, sobretudo em mensagens trocadas por sms, porque o Carlos Arroz é um cavalheiro mas não perdoa à ignorância e faz muito bem.

Irritado por ter caído na tentação de opinar sem conhecimento "suficiente" de causa desatei a procurar informação de qualidade para as minhas "FAQ", singelas questões que toda a gente andará frequentemente a levantar sobre o assunto sem eu disso me haver apercebido. O meu amigo Arroz aconselhou-me os "sites oficiais", eu aconselhei-o a ler este:

OCHO RAZONES PARA NO VACUNARSE CONTRA LA GRIPE A
Por Juan Gérvas,
Médico general rural, Canencia de la Sierra, Garganta de los Montes y El Cuadrón (Madrid, España), profesor de atención primaria en Salud Internacional (Escuela Nacional de Sanidad, Madrid) y profesor en Salud Pública (Facultad de Medicina, Universidad Autónoma, Madrid)

É um contributo que me parece sério. As questões, FAQ ou não, para mim são três:

1) Esta gripe causa maior mortalidade e morbilidade do que a sazonal?

2) Causa maior mortalidade e morbilidade em crianças, jovens e grávidas, ou outros grupos imprevistos?

3) Está demonstrado o benefício de tomar a vacina?

Respondidas a estas três, podemos enfrentar a questão decisiva:

4) O tratamento comunicacional e os meios alocados pelas autoridades de Saúde ao combate à Gripe A justificam-se, considerando o universo de problemas e a eficiência que deve ser especialmente exigida a uma política de saúde?

Se a estatística confirmar as afirmações do Prof. Juan Gérvas, as repostas são:

Não, não, não e... NÃO!

sábado, 28 de novembro de 2009

112: UM PROBLEMA QUE NÃO SE RESOLVE


Há pouco mais de um ano, no então Jornal Nacional de Sexta, tratei várias vezes o problema das chamadas perdidas do INEM (deixei neste espaço alguns comentários ao assunto, aqui e aqui).

O JN de Sexta pôs no ar várias peças documentadas com fotografias como esta (referente ao turno 8H/16H de quinta-feira do Centro de Orientação de Doentes de Lisboa). Mas tive ainda espaço (tempo) no jornal para uma extensa reportagem em que bombeiros, polícias e vários cidadãos contavam experiências dramáticas com o INEM. Já não disponho do "link", mas recordo-me que eram dez minutos de televisão apocalípticos. Um pai que ficou uma hora à espera de ambulância com uma criança trancada no carro depois do acidente; um filho que viu o pai morrer de enfarte sem conseguir socorro; bombeiros que andaram perdidos à procura de uma mulher desmaiada porque o INEM os mandou para uma igreja errada; polícias da central 112 a sofrerem em directo as reclamações de cidadãos furiosos porque as chamadas caíam quando eram encaminhadas para o CODU; médicos da central em pânico porque uma mulher tomara uma caixa de comprimidos e não morava na rua para a qual o sistema informático "enviara" os bombeiros.

Como os factos eram graves mas não envolviam directamente políticos, banqueiros ou outros seres poderosos no mundo dos negócios ninguém se atreveu a chamar "sensacionalista" a uma reportagem que era, de facto, um turbilhão de emoções e um verdadeiro murro no estômago. Senti eu a pancada, ao presenciar a indignidade extrema da situação e a revolta de pessoas indefesas; e sentiram-na, seguramente, todos os espectadores com critério cívivo e independente de partidarismos.

Abílio Gomes, um tenente-coronel que não conhecia e não conheço, com uma respeitável carreira militar, tinha acabado de chegar à presidência do INEM. Por mero acaso, estreava-se com uma crise mediática que devia ter estoirado antes, porque a contratação de um sistema informático duvidoso e a redução de pessoal do CODU haviam sido decisões do anterior conselho directivo, chefiado pelo médico Luís Cunha Ribeiro, que entretanto transitou para conselheiro do secretário de Estado da saúde Manuel Pizarro.

Confesso-vos que tive esperança, como cidadão, que o novo presidente do INEM percebesse a inaceitável gravidade diária da situação e tomasse todas as medidas necessárias para a resolver, custassem o que custassem em termos financeiros ou de pequena política do Ministério da Saúde. Recordo-me de lhe fazer chegar a mensagem de que as notícias não eram "contra" ele, ou provenientes de algum lobby apostado em queimá-lo à nascença. A carreira militar e as referências elogiosas de algumas pessoas que o conhecem levaram-me a acreditar profundamente que o problema iria ser resolvido.

Abílio Gomes só me decepcionou quando, chamado ao Parlamento, optou por um discurso justificativo. Disse então que não havia chamadas perdidas no INEM e que as chamadas eram "desligadas" pelos contactantes, devido ao "tempo psicológico" de quem passa por situações de urgência. As pessoas que eu tinha entrevistado - e eu próprio, que uma vez pedi socorro para um carro caído numa ravina e não fui atendido - acabavam responsabilizadas depois de terem sido vítimas. Recordo que algumas me telefonaram, interessadas em responder na televisão ao presidente do INEM. Entendi totalmente a indignação, mas acabei por não concretizar a ideia, que me pareceu excessiva depois de tantas peças a denunciar o assunto. O INEM decidira lançar uma auditoria interna ao sistema informático e eu confiei que tudo se encaminharia para uma solução definitiva. Pareceu-me adequado deixar o novo Conselho Directivo trabalhar em paz, aliviando, na parte que me cabia, a pressão mediática.

Houve mais um sinal negativo, que foi a retirada do sistema informático do CODU dos indicadores de qualidade e resposta que se podem ver na fotografia, fruto de um reaparecimento que julgo saber furtuito esta semana. Para além da auditoria, o INEM lançou um concurso para a contratação de mais operadores de atendimento e introduziu algumas novidades ao sistema informático do CODU, como o call back, um instrumento que me parece discutível em emergência médica se usado sistematicamente, como acontece.

Acho que errei por omissão ao longo de um ano. Objectivamente, o INEM pode até ter melhorado
alguma coisa, mas não resolveu o problema, como se pode ver nesta reportagem de quinta-feira.

Palavra de honra que preferia não ter de dar estas notícias.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A ESPIONAGEM POLÍTICA

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO GRAVA CONVERSAS DE JORNALISTAS

Funcionário do Gabinete da Ministra deixa gravador ligado na sala de imprensa.

O gravador, que esteve sempre ligado, só foi descoberto após um jornalista da TVI se dirigir à mesa para reposicionar o microfone, momento em que encontrou o aparelho ligado a gravar. E foi nessa altura que todos os jornalistas presentes se aperceberam da gravidade do caso. Apagar os nove minutos de conversas gravadas foi a primeira decisão que tomaram em conjunto.

Foi, nesse momento, que o mesmo funcionário entrou outra vez na sala de imprensa e voltou a ligar o gravador, saindo sem se identificar. Alguns jornalistas foram atrás dele para perguntar quem era e porque estava a gravar conversas informais. O funcionário voltou as costas e seguiu caminho sem dar resposta. Foi preciso alguma insistência para finalmente se identificar como António Correia, membro do gabinete da ministra da Educação. À pergunta sobre qual era a intenção de gravar conversas de jornalistas, o funcionário respondeu desta forma: "Temos as mesmas armas".


Isto é de uma gravidade extrema. Estou à espera de quanto tempo e quanta vergonha vai o ministro Vieira da Silva precisar para pedir a demissão da ministra Isabel Alçada.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O SENHOR DIRECTOR

"Não é muito recomendável que um jornalista da RTP que esteja a fazer a cobertura de uma história manifeste opiniões tendenciosas no seu blogue. É discutível. Mas depende também de como o fizer.

Tem Twitter e Facebook?

Tenho, mas discretos. O "The New York Times", no código de conduta que estabeleceu, chegou a um limite muito curioso: sugeriu aos jornalistas que tenham atenção aos amigos aceites no Facebook. "Porque se tiverem muitos 'friends' do partido democrata, vocês estão a pôr em causa a vossa independência".

Costuma receber telefonemas de José Sócrates?

Eu falo com toda a gente. Falo com toda a gente."

Entrevista de José Alberto Carvalho, JN

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"O sítio, manhoso, pobre, deprimido, cheio de larápios, recheado de mentirosos e obviamente cada vez mais mal frequentado, vai rapidamente retomar a sua vidinha triste e cinzenta. E as autoridades do costume vão imediatamente tomar as medidas necessárias e suficientes para impedir que algum espião perverso ao serviço de forças ocultas possa mais alguma vez perturbar os negócios, os arranjinhos, as vigarices e os tráficos de influência das mais altas figuras do Estado de Direito. É caso para dizer que o sítio não tem presente, não tem futuro, mas tem almeidas competentes e eficazes que no momento certo varrem o lixo para as profundezas do Inferno".

António Ribeiro Ferreira, "Almeidas do Regime", in Correio da Manhã