domingo, 16 de março de 2008

O meu privilégio


Passei quinze dias em Havana, uma cidade que me encanta, com um grupo de 150 algarvios cegos ou quase cegos que foram lá recuperar um direito fundamental: a visão. O direito a verem Vila Real de Santo António, a cidade que o Algarve mostra a Espanha, o Rio Guadiana, a família, os amigos. O direito a verem-se ao espelho. O João, nesta fotografia de reportagem à minha direita, tem 22 anos e está ameaçado por uma doença que leva à cegueira total, mas não quer desistir de ver a namorada brasileira que o meteu na adolescência. Policarpo, velho pescador de 81 anos, que passou a vida inteira no mar, precisa do olho que lhe resta para continuar a remar todos os dias para a sua Fernanda, a ilha que lhe tiraram de casa para um lar a quatro quilómetros a pé porque pensões de 200 euros não pagam tratamentos em casa.

Podem pensar que o melhor que um jornalista de 34 anos traz de Cuba é a vida de La Habana. Engano puro, mais puro do que os charutos. O que eu ganhei para a vida em quinze dias de reportagem foi um grupo de amigos. O João, o Poli, a Graciete, o Alfaro, o Ricardo que inventou a sueca com onze trunfos, a Madalena, o casal Nené, a Miraldina e a sua gata Tekas, a minha Calafate, o Manuel de Deus (um pinga-amor de 90 anos) e todos os que eu não conheci melhor porque quinze dias não é muito tempo. Comecei a contar a odisseia deles esta noite e amanhã a TVI vai pôr no ar uma grande reportagem. Estou profundamente inquieto porque não sei se conseguirei mostrar às pessoas quem eles são. Nem como foram tratados pelo Serviço Nacional de Saúde e pela Oftalmologia portuguesa.

Mas vou tentar. Isso vou.

5 comentários:

Anónimo disse...

A tua inquietude, eu sei, é pelo abandono destas pessoas. O estado a que o Estado, que somos todos nós, chegou.

Sabes que concordo com o OMS quando diz que o nível de desenvolvimento de um País se avalia pela forma como trata os seus idosos, doentes e carenciados.

De facto somos pequeninos, terceiro-mundistas, mesquinhos e preguiçosos no que toca à saúde.

A história que vais contar será sem dúvida bem contada, não tenho dúvidas. A simplicidade com que abordas estas questões nas tuas reportagens envergonham qualquer cidadão por permitir que se chegue a este ponto.

Por isso, P., a tua inquietude não é pela forma como vais contar a história, é pela falta de vergonha dos Políticos que assobiam para o ar e pedem paciência.

Paciência para os aturar, a eles e aos médicos Portugueses, cúmplices desta vergonha (alguns deles com 1 cirurgia por semana no currículo, outros com 1 por ano).

É bom que se pense nos executores, quem deixou proliferar listas de espera para alimentar os privados, quem roubou descaradamente horas ao SNS para operar no privado.

Isto também é crime e estes senhores, e senhoras, não são menos criminosos que os políticos, têm é mais lata!

Não te preocupes com a tua história, será sem dúvida magnificamente contada, como sempre...:-)

Aquele Beijo

Rui Vasco Neto disse...

carlos,
eu vi, estava na batata de sempre! Bem contada, bons bonecos, no tom certo, o teu. Interessante, viva. Não-xaropada. E alguns dos cromos eram de primeira, digo com o carinho que te senti. Que te preocupa, afinal? Fidel?
abraço.

Becki disse...

Carlos Enes,

Parabéns por mais este excelente trabalho. Sucesso na carreira e que continues a realizar trabalhos de alerta para o cidadão comum como também para nossos governantes.
Demonstrou-nos que o que falta é amor, interesse pelo outro.
Bravo!!!!
Abraços da
Rebeca RocknSushi

Anónimo disse...

Cara Direcção do Jornal de Noticias SA



Tem sido constatado que frequentemente os comentários enviados para a secção "Desabafe Connosco" por parte de emigrantes portugueses residentes nos EUA tem sido bloqueados.

Embora não possa responder pelo conteudo das mensagens dos restantes participantes que se têm queixado, posso afirmar que nenhuma das mensagens que tentei enviar iriam contra as normas presentes no referido forum.

Aliás as mensagens enviadas e não publicadas podem ser observadas no seguinte local: http://luso-americano.blogs.sapo.pt/



Como podem verificar não são mensagens que contenham insultos ou palavões susceptiveis de ferir susceptibilidades.



Em contra partida vê-se constantemente a publicação de mensagens que promovem um outro local que esse sim é useiro e abuseiro no insulto, difamação de parte dos participantes. E muitas de outras são igualmente insultuosas para certos participantes, mas mesmo assim publicadas.



As perguntas que coloco são as seguintes.



1º - Que conceito editorial e de publicação têm os elementos que controlam as publicações no referido espaço?

2ª - Que poderão achar todos os elementos que vêem os seus comentarios negados, sem justificação para tal?

3ª - Será o JN um orgão de comunicação Social que baseia a sua conducta na censura dos seus participantes?

4º - Será que o JN vê os emigrantes portugueses como direitos inferiores aos restantes portugueses?

5º - Porque razão é acentuadamente mais dificil durante o Fim de Semana que os emigrantes portugueses vejam os seus textos publicados.

6º - É ou não o JN um orgão de comunicação Social isento e que fornece igualdade de tratamente a todos os que o visitam desde que não vão contra as normas publicadas no referido espaço?



Aguardo o mais breve possivel um esclarecimento,

entretanto este texto será publicado na integra em outros locais, incluindo o acima referido de forma a que seja do conhecimento geral o tratamento diferenciado que o JN fornece aos seus leitores e participantes.

Anónimo disse...

grandiosa reportagem,como já o disse o seu trabalho merece o mais profundo respeito.deu-me vontade de rir ver o bastonário da ordem dos médicos tentar explicar o inexplicavel,a cair no ridiculo de defender o indefensável.diz ele que a ida dos nossos doentes para cuba envergonha o pais....e fez questao de ir falar com o sr. presidente da republica para lhe dizer isso,"preocupado" que estava com a situaçao.coitado,tão preocupado com a fuga dos doentes para fora,preocupado com a fuga de capital...humano é claro.
como preocupados estiveram os médicos quando a introduçao do pontómetro(marcaçao electronica da entrada e saida de serviço),bastou ver o pé de vento que fizeram no hospital de pedro hispano,aliãs foi a unica classe que se manifestou contra.tudo em nome dos doentes é claro,e que outra coisa poderia ser?...sempre os doentes.os médicos poem sempre os doente á frente de tudo.marcar o ponto electronicamente é uma chatice,ter de chegar a horas é uma chatice,ora que coisa alguem a controlar os medicos.
agora mandar os doentes para cuba e espanha,que chatice.a lista de espera minga a olhos vistos,outra chatice.
não tenho nada contra os médicos,ha bons ,maus e assim assim.tenho é contra este sistema que não consegue separar o que é interesse do cidadão e o que é interesse de uns milhares de mercenários da saude que roubam os nossos bolsos já tao pobrezinhos.
já não ha paciencia para aturar isto.venha cuba,venha espanha,venha quem quiser,afinal que trata mal os portugueses senao os proprios portugueses?