sexta-feira, 7 de março de 2008

OS PROFESSORES



"Seria bom, Agatão, que a sabedoria fosse uma coisa que se pudesse transmitir, de um homem que a possui, a um homem que a não possui, mediante um simples contacto mútuo, tal como a água que passa para um copo vazio através de um simpes fio de lã"

Este excerto de O Banquete, de Platão, marcou-me profundamente na adolescência, época em que andei muitas vezes à guerra com professores. Foi no ensino secundário, ou talvez no agora denomidado 3º ciclo do ensino básico. Em boa verdade, o resto do diálogo socrático já se me passou, mas esta ideia ficou-me para sempre desde a primeira leitura.

Marcou-me como poucas coisas. Hoje tento analisar essa emoção. Esta frase antiga é sobre o problema eterno da transmissão do saber. Para mim, o que conta é que dá por adquirido que há mestres. Aliás, se não os houvesse, se não fossem então reconhecidos, estou certo de que os gregos não discutiriam o assunto.

Muitos dos meus problemas com a escola nasceram deste preconceito. Fui quase sempre injusto, é certo, mas parte das minhas revoltas com professores resultaram do facto de ter sido bem (mal?) habituado. Eu pertenço a uma geração de felizardos que teve contacto com mestres.

Tive uma professora primária, chamada Irmã Bernardete, absolutamente extraordinária e absolutamente competente. Devo-lhe, sem exagero, tudo o que fui capaz de aprender depois dela. No ensino secundário conheci depois os dois grandes professores da minha vida. Rui Leite Braga, que me ensinou História, e o Sócrates, meu professor de Filosofia no 12º ano, que tinha nome próprio mas era assim conhecido e assim vai perdurar enquanto um aluno dele estiver vivo neste planeta. Não me sinto ainda hoje capaz de escrever sobre eles.

Os nomes deles ficam aqui porque quero testemunhar que há grandes professores que nunca deram aulas numa universidade. Não sei se amanhã os grandes professores que eu não conheço se vão manifestar ou não. Acredito que sim depois das miseráveis incursões da polícia nas escolas. Quanto à política de Educação, não tenho nada a dizer porque a conheço pouco. Aguentei alguns anos a acompanhar o assunto, era Marçal Grilo ministro e eu jornalista iniciado de O Independente, mas fiquei tão esgotado com a experiência que, com a complacência dos meus chefes, nunca mais voltei a ele.

No entanto, retenho desse tempo em que acompanhava "o sector" (odeio esta palavra mas ponho-a aqui para vos lembrar como chamamos hoje às escolas) uma informação que me parece relevante. Os futuros professores entravam no ensino superior com notas miseráveis. Lembro-me de "sacar" das catacumbas mais obscuras do ministério um relatório da Inspecção-Geral da Educação que contava a história toda. Eram admitidos em cursos das Escolas Superiores de Educação, para professores do 1º ciclo, alunos com notas 6 e 7 a Português e a Matemática. Ou seja, no lugar da minha Irmã Bernardete muitas crianças deste desgraçado país aprenderam a ler e a contar com gente que nunca saberá ler nem contar, já não digo como ela. Foram para professores porque não tinha média para ingressar nos cursos de que gostavam.

Não me espanta que qualquer sistema de avaliação de professores seja uma década depois impraticável. Não sei, por falta de estudo, ajuizar sobre o sistema em discussão. Mas tenho uma ideia sobre o que faz falta às nossas escolas democráticas. Depois da massificação, que tentou dar a todas as crianças portuguesas iguais oportunidades de aprender e escolher um modo de vida, faz falta qualidade. Qualidade, um pouco mais de exigência e de mérito. As civilizações podem suceder-se que as escolas serão sempre o lugar dos escolhidos para transmitir saber e dos eleitos para o receber.

Numa sociedade consciente os professores seriam os melhores, ou pelo menos escolhidos entre os bons, teriam todos escolhido a carreira por vocação e seriam compensados moral e financeiramente por isso. Não vale a pena debater sistemas de aprendizagem ou de avaliação se os professores não o forem de facto. Só um doido discute como passar a água de um copo vazio a outro. Será que o Governo tem alguma política sobre isto? E a sociedade pensa no assunto ou está só a ver se ministra abana?

1 comentário:

N disse...

Escreveu políticamente incorrecto. Ainda bem. Mas o mal do ensino, ou da educação, tem culpas que envolvem toda a sociedade, dos pais ao ministério, dos professores aos alunos. Penso que é um problema do nosso momento cultural, e da nossa identidade como país. Um país que não tem projecto de existência para o futuro, a não ser adormecer nos braços da UE, que o protegerá, é um país que se suicida. E o modo mais simples de se suicidar é não ter educação nem cultura. Estamos num país sem sonhos, com uma juventude sem sonhos, porque para sonhar é preciso acreditar, e os exemplos que vêm de cima não ajudam. Maus ou bons, a geração anterior de líderes eram homens de cultura, agora são homens de aparelho. Estamos todos a ser dirigidos por um aparelho divorciado da realidade da vida. Isso aplica-se a muitos sindicatos.
A situação merecia uma insurreição nacional, em que as pessoas percebessem que sem educação, sem aprender a aprender, sem saber filosofia, sem aprender as raízes da civilização, nunca terão uma identidade, nunca aprenderão a pensar. Mas não será esse o objectivo ?