segunda-feira, 9 de junho de 2008

NOJO


Acompanhei o caso como jornalista. Ana Sofia, 21 anos, alentejana, bonita, filha única, andava a estudar em Lisboa, como eu andei durante quatro anos. Numa tarde maldita interromperam-lhe o curso. Foi espancada, violentada, asfixiada e brutalmente assassinada por André Casaca, um ex-namorado movido a drogas pesadas, que no fim ainda tentou incendiar-lhe o corpo e meteu-a mesmo num caixote do lixo de Telheiras.

A besta, que eu vi, apareceu em tribunal sem pinga de arrependimento, altivo, arrogante, a defender uma tese de acidente. Tinha decorado o discurso de uma vítima. Mas as entranhas impediram-no de esconder, a cada palavra, o vento tempestuoso e frio dos carrascos. Os advogados dele ainda tentaram fazê-lo passar por maluquinho, que se escreve inimputável na retórica jurídica, mas não colou. Apanhou 22 anos de cadeia, onde seguramente continuará a andar movido a drogas (porque é proibido fumar em espaços fechados, mas para o Estado há espaços mais fechados do que outros).

O Casaca é todo ele consumo, não faz despesas de investimento. Não tem bens em nome dele e por isso não vai pagar um tostão pelos danos (alguém imagina?) causados aos pais da vítima. Daqui a uns dez anos, é quase certo, há-de sair a tempo de espalhar outra vez os seus violentos e frios direitos de cidadania. Ou alguém acredita no poder regenerador das cadeias portuguesas para tipos assim?

Mas apesar da falência técnica do carrasco, as contas não ficaram saldadas. O tribunal mandou uma última factura aos pais da Ana Sofia. Tomem lá 15 mil euros de custas judiciais porque estamos no Século XXI e temos Justiça. É o preço a pagar por quem não resolve a coisa à maneira antiga, sangue por sangue, morto por morto.

Esta história imoral vem hoje escarrapachada na página 21 do "24 horas" para nossa vergonha, vergonha, vergonha. Amanhã esta edição do jornal já vai estar esquecida. E na minha pacata cidade, bem refugidas dos camionistas, as altas figuras do Estado (qual Estado, alguém é capaz de me explicar?) vão fazer discursos de esperança e sorrir para as fotografias. Não posso lá estar mas vou pedir aos meus pais para aderirem ao protesto que anda a dar trabalho a uns policiazinhos vianenses, com ordens para se armarem em Pides. Vou dizer-lhes que conheci os pais da Ana Sofia em pleno julgamento. Vestirei eu também a minha camisa preta, que já usei para falar dos cegos abandonados pelos hospitais públicos.


Estou profundamente enojado e esse direito ninguém mo tira.

5 comentários:

Anónimo disse...

Duas conclusões sobre esta história:
1. ilustra porque a pena de morte e a prisão perpétua têm razão de ser;
2. os advogados devem poder ser levados a tribunal pelo trabalho que executam. Passo a explicar. Os advogados de defesa conseguiram o brilhante resultado de a sentença ser apenas 22 anos, e ao fim de 10 o animal vir cá para fora. Pois bem: se a besta tornar a fazer algo semelhante, devia ser possível que as vítimas do novo crime - e as do anterior - passassem a poder processar os advogados de defesa por cumplicidade, no segundo caso, e por encobrimento no primeiro.
É mais fácil e imediato responsabilizar os juízes pelo estado da justiça em Portugal, esquecendo-nos todos, da responsabilidade que os advogados têm por enganarem deliberadamente os juízes em Tribunal. E já agora: quem é que tem normalmente mais dinheiro para contratar um bom advogado? O patife ou a vítima? Suprema das ironias: o patife até paga a sua defesa com o dinheiro da vítima...
NM

Anónimo disse...

Anunciou hoje o Primeiro-Ministro a expansão do programa e-escola aos alunos que frequentam o terceiro ciclo (12-14 anos de idade). Direi que deveremos viver num mundo que nada tem a haver com a realidade do dia a dia do que é uma escola e das prendas que este governo lhe oferece.
Amanhã, qualquer menor, sem autorização dos pais e a coberto da legislação, poderá começar a praticar qualquer tipo de crime informático quando, onde e como quiser, a coberto das políticas de educação deste governo.
Acho que a demagogia que o actual governo demonstrou hoje é o de um completo descalabro e de vender por completo a escola pública; sim, porque estas medidas AVULSAS nada têm a haver com quem chega à escola com a barriga vazia ou que vai ter que esperar dez ou quinze anos para ter acesso a uma consulta de dentista e ter hipóteses de começar a tratar dos seus dentes. Infelizmente o senhor Sócrates não convida e senta-se à mesma mesa com esses miúdos cheios de fome e com os dentes pobres.
Hoje o país ficou a conhecer como a política de educação consegue baixar ao nível zero com este governo.

teresa disse...

carlos enes,

vi este post, e comentei, no sete vidas. não vou repetir o que lá disse, mas não me parece que isto seja assim tão simples como "onde está o estado?"
Sim, há por aqui muitas injustiças, mas talvez não sejam aquelas para onde os canhões estão apontados.

Carlos Enes disse...

Caro NM:

Respeito a sua opinião, mas não concordo. Sou contra a pena de morte e entendo que todos têm direito à defesa e que os advogados existem para isso. Por todas as razões conhecidas e mais uma: nós não temos uma máquina da verdade, tipo S. Pedro à entrada do Céu. Só temos simulacros, máquinas menos perfeitas e sujeitas a erro. A nossa está avariada? Estou cada vez mais convencido que sim e os maiores defeitos, de facto, são de fabrico, com o patente da nossa Assembleia.

Cara Teresa:

Obrigado pela sua atenção. Respondo-lhe no mesmo sítio, que também gosto de frequentar.

A todos:

Não tratei aqui da responsabilidade de ninguém. Pela razão simples que senti uma urgência tremenda em escrever sobre o facto, que não me permitia reunir elementos para tomar qualquer posição desse tipo. Depois disso, tenho tido discussões com amigos, juízes, advogados, cidadãos de bem. mesmo assim, faltar-me-iam ainda elementos se quisesse produzir, por exemplo, uma notícia.

Mas há uma coisa que vos digo: se o actual código de custas obriga os juízes a decidirem assim tem de ser revogado. Se o tribunal tinha uma maneira de evitar o gesto, entendo que devia ter lançado mão dela. Mas não estou em condições de discorrer sobre isso, por isso não tratei aqui da responsabilidade de ninguém.

Anónimo disse...

Gosto desse teu amigo, o RVN, ele respondeu à Teresa aquilo que gostarias de ter respondido mas achaste demais. Pois a minha persolnalidade é parecida com a dele mas isso tu já sabes...Adorei a tua explicação e a dele mas só por uma questão de estilo revejo-me na dele:-)

Que se cale a Sra.

Beijos

Dalmata