quinta-feira, 1 de março de 2007

PRÓS E CONTRAS DAS URGÊNCIAS


"Antes de mais, deixe-me felicitá-la, Fátima. Por muito que eu tivesse uma boa máquina de propaganda, não conseguiria explicar tão bem aos portugueses o sentido desta reforma", começou por dizer o ministro da Saúde.

Era o início da segunda parte. Fátima Campos Ferreira (FCF), cada vez mais à vontade e mais eficaz na condução do programa, introduziu o ministro com os mapas da comissão ministerial das urgências na mão e os olhos na câmara. "Como vêem", a realidade das urgências "vai melhorar". Os mapas argumentavam que a percentagem de portugueses do território "vermelho", que vivem a mais de 60 minutos de uma urgência, vai diminuir drasticamente.

Depois FCF sentou-se, ao lado do ministro, o que constituiu uma inovação radical na retórica televisiva do programa. O ministro não esteve na primeira parte, não se sentou na bancada direita dos "prós", nem na esquerda dos "contras". Apareceu depois e ficou ao centro, partilhando o espaço cénico da moderadora, que não o interrogou de pé e, na prática, conversou moderadamente com ele (não resisto ao trocadilho). Dir-se-ia que, depois do "debate" técnico, Correia de Campos veio ajudar a ultrapassar pequenas divergências havidas na primeira parte. Depois de dias terríveis de contestação social e polémica política, o ministro pôde aparecer como o moderador institucional. E aproveitou bem a oportunidade.

Não sei se as divergências havidas na primeira parte, de tão pequenas, eram verdadeiras divergências.

Os dois médicos escolhidos pela produção do programa para desempenharem o papel de "contras" revelaram-se muitíssimo desconfortáveis na sua pele e não eram, verdadeiramente, "contras".

Se não, veja-se. O médico António Martins Baptista, primeiro "contra", abriu as "hostilidades" dizendo que não tinha "nada contra o ministro da Saúde, nem nada contra a comissão da reforma das urgências" e reconhecendo que uma "nova rede" de urgências é, ela própria, "urgente". O presidente da Ordem dos Médicos do Centro, José Manuel Silva (JMS), era o segundo "contra". Foi apresentado com um elogio de FCF "à comissão de médicos experientes de todo o país" que fez o relatório das urgências e estava sentada na bancada dos "prós". A moderadora perguntou-lhe: "Mesmo assim, por que está contra?". E o segundo "contra" sossegou-a: "Quero salientar o trabalho gratuito da comissão, que prova que os médicos também trabalham gratuitamente".

O único "contra" verdadeiramente "contra" falou na terceira parte, já depois da uma da manhã. Diogo Cabrita, médico cirurgião de Valença, assumiu "uma visão completamente dissonante" da escrita no relatório da comissão das urgências. Para mim, o debate começou ali, mas não durou muito tempo, porque este "contra" verdadeiramente "contra" foi ouvido em pacote com um grupo de presidentes de câmara, com direito a uns minutos cada um para explicarem as suas objecções particulares, e não pôde entrar em debate com o ministro, nem com os "prós".

Mesmo assim, Diogo Cabrita aproveitou o tempo para se demarcar de todos os presentes, como aqueles ciclistas que fazem fugas sem apoio da equipa nem concorrência dos adversários. Atacou o relatório porque "5 milhões de consultas anuais feitas nos serviços de atendimento permanente (SAP) dos centros de saúde desaparecem". Atacou a proposta da comissão de criação de serviços de urgência básicos (SUB) com apenas dois médicos, porque um pode ter de se ausentar para acompanhar um doente a uma urgência mais diferenciada e estranhou o "silêncio" da Ordem dos Médicos sobre o assunto. E causou o único embaraço da noite ao ministro, quando perguntou por que critério científico vai Coimbra manter duas urgências polivalentes abertas, "com 100 médicos a receberem para atender 35 doentes por noite".


Fátima Campos Ferreira continuou a defender abertamente a reforma e até disse várias vezes que "ficará para a história como a reforma Correia de Campos das urgências". A moderadora, honra lhe seja, assumiu a sua convicção, que me pareceu genuína, embora tenha revelado algumas lacunas de informação relevantes, como quando falou duas vezes da urgência "polivalente" de Viana do Castelo.

FCF só quis saber se o ministro assegurava que o INEM e os centros de saúde teriam meios reforçados para aguentar a mudança. Mas essas duas questões, que verdadeiramente representam as dúvidas dos "contras" e dos "prós", mesmo os da comissão, foram facilmente resolvidas com a promessa genérica de que tudo será melhor do que antes.

Nos dias anteriores, pessoas que conheço queixaram-se-me de terem sido "desconvidadas" para o programa. Essa questão deixou de ser relevante depois de visto o programa ele próprio e de ponderado o seu esmagador efeito de pacificação e quase abolição da discussão.Mas o programa, para mim, se não serviu para discutir urgências, é uma excelente oportunidade para se discutir jornalismo.

Ao contrário da maioria, não me choca que os moderadores tenham opiniões, desde logo porque são jornalistas e eu sei que os verdadeiros jornalistas, que estudam os assuntos, quase sempre formam opinião, ainda que raramente a complexidade da vida real lhes permita abolir a dúvida metódica e uma certa prudência.

Ao contrário da maioria, entendo que a "objectividade jornalística" é uma retórica desprezível e perigosa. O perigo não está num jornalista ter opinião, nem num programa que a difunda. O perigo está nas estratégias retóricas que levam os cidadãos a confundir uma opinião ou uma análise, por mais profunda que seja, com a "realidade".

Mas é claro que a subjectividade, por mais incontornável, não tem de impedir o jornalismo de acontecer. Numa sociedade aberta, a entrevista e o debate são óptimos instrumentos de informação. As perguntas incómodas e a "confrontação radical" de teses antagónicas permitem discutir a fundo as realidades mais complexas e esclarecer a maior quantidade possível de dúvidas de quem não tem acesso à discussão.

A única repugnância que tenho é com a encenação de uma falsa pluralidade, capaz de convencer quem não tem acesso à informação de que se fez um debate que ficou por fazer.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O RELATÓRIO PROIBIDO DOS MEDICAMENTOS

As conclusões de um estudo científico realizado em parceria pelo Ministério da Saúde e pela Associação Nacional das Farmácias, financiado por ambas as entidades, revelam um desperdício brutal e permanente com os medicamentos receitados pelos médicos.
Por cada embalagem comparticipada saída das farmácias, o desperdício médio é de 4 euros e 44 cêntimos, ou seja, é esse o valor das cápsulas, comprimidos e saquetas que vão ficar esquecidos numa gaveta lá de casa, até irem para o lixo ou serem devolvidos às farmácias para serem incinerados. Em média, cada vez que um doente vai à farmácia aviar uma ou mais receitas, desperdiça 5 euros e 83 cêntimos em medicamentos que não vai utilizar.
Os investigadores do Instituto de Qualidade em Saúde e do Centro de Estudos da ANF demonstram que o desperdício resulta, em partes praticamente iguais, de dois problemas: as embalagens dos medicamentos ultrapassam as necessidades dos doentes e os doentes não tomam até ao fim o que é receitado pelos médicos.
Os investigadores acompanharam por telefone o destino das receitas aviadas por mais de 1600 doentes. Este grupo de doentes é verdadeiramente representativo do universo nacional. Foram incluídas farmácias de todos os distritos do país, não tendo sido seguidos mais de 6 doentes por farmácia. Os investigadores invocam modelos estatísticos validados pela comunidade científica para demonstrarem que os resultados obtidos têm uma margem de confiança de 95 por cento. É impossível fazer um estudo desta natureza com resultados mais seguros.
O universo estudado é o dos medicamentos comparticipados. Ou seja, dos fármacos cujo custo é suportado integralmente pelo Estado, no escalão máximo de comparticipação, ou dividido entre o Estado e os doentes, nos outros escalões. Feitas as contas os investigadores concluem que o Estado, com o dinheiro dos contribuintes, suporta 60 por cento do desperdício com medicamentos. Os outros 40 por cento são pagos pelos doentes, directamente na farmácia.
A conta que vamos fazer agora é da nossa responsabilidade e não tem o rigor científico do estudo, mas do ponto de vista jornalístico impõe-se, para todos podermos ter a noção da ordem de grandeza deste problema.
Considerando o desperdício médio apurado de 4, 4 euros por embalagem, e que os números oficiais dão conta da dispensa de quase 125 milhões de embalagens por ano de medicamentos comparticipados (124.408.494, Estatísticas do Medicamento 2004, Infarmed) , o desperdício global anda perto dos 550 milhões de euros (547.397.374). Destes, 328 milhões, ou seja, 60 por cento, são suportados pelos contribuintes, através das comparticipações, os restantes 219 são gastos pelos utentes no acto de compra.
O Ministro da Saúde proibiu internamente a divulgação deste estudo. Contactado pela TVI, o Gebinete de Correia de Campos respondeu que"ainda não se encontra para divulgação".
http://www.tvi.iol.pt/informacao/noticia.php?id=769330