sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A "encomenda"

O Público, quando escreveu que a Presidência da República suspeita estar a ser alvo de vigilância ilegal do Governo, atribuiu a notícia a uma "fonte da Casa Civil" de Cavaco Silva.

Essa fonte foi identificada até onde era possível, nos termos do livro de estilo do Público, mas sem violar a decência de um contrato verbal de confidencialidade estabelecido entre o jornalista e a sua fonte, de resto protegido por qualquer manual de Jornalismo e até mesmo no código deontológico português:

"O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. O jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, excepto se o tentarem usar para canalizar informações falsas. "

O "DN", hoje, publica correspondência privada entre jornalistas do Público.

Trata-se de uma opção editorial arriscada.

Desde logo, nos termos do referido código deontológico português:

"O jornalista deve utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja".

Depois, porque o "DN", que em tempos ficou famoso por divugar as próprias fontes, surpreende agora ao denunciar as fontes da concorrência. João Marcelino, numa nota da Direcção, justifica a publicação desta correspondência privada com o "interesse nacional".

A minha primeira pulsão, como jornalista, não será nunca a de criticar a divulgação por um jornal de informação que os seus jornalistas acreditam ser verdadeira, por mais que relativize a visão de cada um quanto ao "interesse nacional".

Mas há uma questão de decência.

Se o "DN" acha que pode invadir ou beneficiar da invasão de correspondência privada, ainda por cima para denunciar fontes confidenciais de informação de jornalistas de um jornal concorrente, deve ser consequente.

Quem é a fonte do "DN"?

Em nome do "interesse nacional" de João Marcelino, qualquer leitor que tenha comprado o "DN" de hoje tem o direito de perguntar:

Quem é a fonte do "DN"?

Se o "DN" acha que as fontes de informação podem ser divulgadas - e que nalguns casos de "interesse nacional" devem ser denunciadas - deve ele próprio denunciar:

Quem é a fonte do "DN"?

No caso em apreço, não é só uma questão de decência.

A traição do "DN" à sua fonte pode esclarecer a questão de fundo. Quem, em Portugal, anda a violar a correspondência de jornalistas? Será o SIS ou um gabinete ad-hoc de informações? E ao serviço de quem?

A notícia do "DN" é a materialização que faltava de um facto que porventura queria ridicularizar, no que à Presidência da República possa dizer respeito: há escutas e violação de comunicações privadas em Portugal, feitas à margem da lei e politicamente orientadas.

Depois, há outro problema.

O "DN" qualifica um contrato estabelecido entre uma fonte de informação e um jornalista do Público como "encomenda".

O termo "encomenda" qualifica, obviamente, os jornalistas que o usam.

O "DN" reconhece às suas fontes confidencias de informação interesse para alguma coisa? Ou acredita, como parece, que só recebe "encomendas"?

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

BRAÇOS DESCIDOS

Boa parte da comunicação social caminha ela própria, pelos passos que enceta, para a perda da liberdade. Não só não tem meios para ser livre, como desceu os braços na luta por uma sociedade livre. Não se trata tanto de alguém a pressionar ou censurar.

Trata-se de cada comunicador, por sua conta e risco, ter medo de dizer ou escrever o que pensa ou o que sabe. Manter o emprego e alinhar com a voz imperante é mais cómodo.

É mais do que consequente que esta falta de liberdade, um dos valores perdidos nos arranjos de interesses encadeados, está a conduzir, se não a provocar, a crise do sistema democrático

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa, in Correio da Manhã