terça-feira, 29 de dezembro de 2009

1989-2009

Hoje percebo melhor o Sócrates, meu professor de Filosofia no 12º ano. O Sócrates foi o ser mais inteligente que conheci nesta vida.

Apareceu de gabardine azul, guarda-chuva de bico metálico, só metade dos cabelos brancos, sorriso discreto e um ar que era dele. A turma (gosto do termo, na internet deve soar brasileiro) arrumou-se por ali acima, numa sala cheia de cadeiras com tampos corridos de madeira antiga, que subiam em filas paralelas até ao tecto como num anfiteatro.

A turma vestia-se bem. Para ser mais claro, rapazes éramos três. A turma, qual obra divina, fora gerada quase só de meninas adolescentes e giríssimas, as melhores de Viana. Eu tinha aterrado ali, vinha da outra escola. Queria conhecê-las mais a elas do que às lições. As lições à época já se chamavam matéria, nome escabroso que os políticos repetem em discursos e debates para capturar todas as coisas e simular o seu domínio. O único pormenor estranho ao plano colectivo de nos conhecermos uns aos outros era a necessidade de sacar uma notas altas para garantir acesso a um curso de Direito, ou de Direito, Sociologia, Direito e no meu caso de jornalismo em Lisboa. Tinha que ser em Lisboa porque é onde tudo se passa. Não havia telemóveis mas a turma fazia ruído com todas as roupas, todos os cadernos de argolas, todas as palavras e as coisas. A turma era uma gargalhada moderada mas contínua, uma coisa bonita e saudável à séria.


O Sócrates sentou-se e não interrompeu. Foi a primeira vez que, abstendo-se, levou a turma ao comportamento absurdo de se calar sem ordem ou convite. Demorou, claro que demorou, mas fez-se silêncio, um silêncio total e sem sentido. Só depois aquele professor velho, sentado, de gabardine azul ainda engomada e guarda-chuva entretanto arrumado ao canto direito do estrado, se apresentou.

Eu sou o Sócrates, o vosso professor de Filosofia do 12º ano.

A turma era justamente desconfiada de professores velhos, por medo que dificultassem o plano central, urgente e permanente, dia fora e noite dentro, de viver a vida. Nada pode haver de mais justo. Digo-o como se fosse a minha ideologia, sem puto de ironia.

Mas viver a vida, no sofisticado 12º ano de escolaridade, implicava sacar umas notas. Roubar é crime. Sacar, juro que aprendi na escola, não é o seu eufemismo mas um recurso universal. Consistia, à época, em decorar, despejar e não aprender nada. Quem soubesse escrever umas coisas nos testes era íntimo desse expediente. Um bocado de matéria espalhado por frases sem erros não só garantia sucesso escolar como prometia acesso livre de maçadorias ao complexo sistema de títulos académicos, empregos, salários, poder de compra e reconhecimento social dos portugueses. Nada disso era, ainda, demasiado importante. A turma, justamente, queria era festas. Sacava notas e festejava todas as coisas.

Depois da objectiva apresentação do Sócrates tivemos tempo de sentir isto tudo no mais absurdo silêncio. Foi quando ele interrompeu outra vez, para perguntar à turma se tinha perguntas. Recordo-me que foi divertido. Então, como se chama? Fernandes Costa, acho que disse assim mas do nome próprio não estou tão absolutamente seguro. Mas a rapaziada resolveu chamar-me Sócrates, eu até nem me identifico, chamaram-me sem estudar bem o assunto, mas ficou dito, Sócrates.

E Sócrates, contra quase todos os estereótipos de professores divertidos que conhecera até aí, foi o mais rigoroso e científico dos professores. Os testes dele tinham seis perguntas mas podiam ser respondidos numa página A4, de caligrafia grossa. Não dava para despejar, ele só reconhecia a precisão. Culto, conhecia os livros como ninguém. Lúcido, isso não o impediu de saber o que o sistema queria, estudava-o por dentro. Eu não, que o meu curso não requeria, mas várias na turma fizeram a prova específica de Filosofia, uma prova nacional classificada por professores desconhecidos a partir de uma grelha de avaliação fabricada no ministério da Avenida 5 de Outubro. Tiveram todas entre 92 e 98 por cento. Os resultados das alunas do Sócrates foram um acontecimento na escola mas ele quase não ia à sala de professores e fingia nem ouvir os elogios.

Estava como que vocacionado para o isolamento. Poucos amigos e hábitos simples, como a bica antes das aulas. Um dia, num pequeno-almoço no café Kanimambo, sentou-se à minha mesa e perguntou-me se estava mesmo decidido a ser jornalista. Ouviu-me com atenção mas pressenti-lhe o desgosto escondido atrás de uma piada qualquer. Acho que foi aí que me contou que tinha crescido profissionalmente em Lisboa mas fora parar à província. Aconselhou-me a sair daqui. Se quisesse muito fazer jornalismo que trabalhasse como correspondente no estrangeiro. Resisti. Nas aulas tinha aprendido com ele, nuns textos antigos, que as coisas são o que são mas não são ao mesmo tempo. Pensei que isso quisesse dizer que sempre poderiam ser diferentes. Esqueci-me de fazer a síntese, de o valorizar a ele, o espírito de si, o espírito fino dele, no café, sem puto de matéria. Fino e puto (eram assim desconcertantes as expressões dele, nos intervalos de conceitos rigorosos falava por piadas em itálico). Entre duas dentadas num croissant misto prensado, o Sócrates foi o primeiro a avisar-me: isto é o que é e já não vai a tempo de ser diferente.

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